quinta-feira, 4 de abril de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica

Artigo sobre a publicação do seu primeiro livro, intitulado ‘Música Secreta’, que R.F.Lucchetti editou em Ribeirão Preto por conta própria (cem exemplares) em 1952.
Rafael,
O livro de poemas em prosa ‘Música Secreta’ eu o publiquei em Ribeirão Preto em 1952. Foi uma pequena edição de cem exemplares distribuída entre amigos, conhecidos e críticos. Ele foi o preâmbulo de outros tantos poemas em prosa inspirados naquela que foi a primeira e única mulher da minha vida, com quem viveria 54 anos e dois meses.
Os primeiros poemas foram escritos sob a lembrança de sua imagem, quando sequer sabia seu nome. Bastou vê-la uma única vez para que sua imagem se apoderasse do meu pensamento. Vi-a poucas vezes e só cheguei nela por uma dessas coincidências cinematográficas.
É minha intenção passar tudo para o papel, narrar como tudo aconteceu. Serviria de preâmbulo para a publicação de uma parte desses poemas. Não sei se teria interesse na Internet. Francamente que não sei.
O autor do artigo, Armando Lagamba era professor de Português e crítico de arte. Eu copiei apenas uma parte de seu artigo. Ele se encontra num dos jornais que fazem parte da minha coleção e está encadernado.
Jardinópolis, 13 de fevereiro de 2012.
MÚSICA SECRETA
Só em poder tocar o belo livro de Rubens F.Lucchetti eu diria que nossos lábios ensaiam movimentos para balbuciar as maviosas figuras criadas pelo novo poeta.
De fato em ‘Música Secreta’, vamos nos encontrar num mundo diferente, onde o poeta nos transporta, na primeira parte de seu livro, aos campos desconhecidos para os simples mortais, indiferente ás maravilhas de poder “falar” com a alma como muito bem o faz o jovem Rubens.
(...)no livro em toda a sua primeira parte, o autor procura uma resposta em vão, talvez sofrendo um amor desconhecido, mas sempre cantando em belas figuras, o seu amor eterno e sincero, como muito bem podemos ver em ‘Sei que virás’ quando o poeta  escreve: “...Estive esta manhã contemplando a natureza das coisas e fiquei sabendo: o que é belo e real existindo sob a luz, a palpitação da asa, a rósea explosão da aurora, o que está suspenso no exilio e tua tristeza – todas esses coisas que contém o milagre da paz, não sei anunciam jamais – elas chegam simplesmente: simplesmente chegam para preencher o lugar que as esperava, o vapor róseo da manhã para fazer companhia ás rosas, a asa para povoar de música o espaço  frio e tua tristeza, ah, a tua tristeza, onde estão as palavras que poderiam mencioná-las sem ferir o corpo leve de tua tristeza...” E Rubens F.Lucchetti continua procurando encontrar a bela mulher de seus sonhos, e  a encontra quando ao passar de simples espaços de tempo, nesta, terra, o futuro lhe chega aos pés contemplando-o com a felicidade eterna!
(...)E muito mais nos fala e nos toca o coração, ferindo ás vezes, nossa alma, com sua delicadeza e sua maviosa capacidade de poder escrever aquilo que nós sentimos a todos os instantes, mas que NÃO SABEMOS que sentimos, é o que podemos ver e sentir no livro ‘Música Secreta’ (...) que agradará a todos, tenho certeza, principalmente na primeira parte, quando o autor nos leva a sonhar e viver, como também sentir aquilo que ele sentia quando escrevia as poesias.
Terminado, tenho apenas que sugerir a leitura de ‘Música Secreta’ a todos os amantes da boa leitura, pois é um dos raros livros que até hoje nos agradou.
Armando Lagamba
O DIÁRIO
Ribeirão preto, 12 de junho de 1958
COMO O SONO SOBRE OS OLHOS DAS CRIANÇAS
“Doce amor de adolescência perdoa...”
EMILE BRONTE
Nem a luz deve tocar-te.
Tu que deixas nas minhas mãos a lembrança fria de um pouco de água viva e de tua boca que cerro num beijo me vem este gosto de tâmaras maduras, não me surpreende quando chegas inesperadamente.
Sei que toda esta longa espera, com a calma das horas dando uma volta na roda giratória do tempo, tem sido por ti, não mais ninguém.
Vens mansamente, como o sono sobre olhos das crianças. Olha: também sou criança, cante-me cantigas de ninar, coisas de outro tempo, a doçura e a inocência boa, a alegria do quarto de brinquedos, os desenhos com lápis de cor, e a alegria pueril do coração em férias.
Tenho uma ternura mansa para te dar. Uma ternura que tem a quietude do voo de uma gaivota em fins de tarde sobre o mar.
As estrelas maduras e uma fonte para os teus olhos!
Tens um poder químico sobre a vida: as coisas que tocas se transfiguram, e a pedra é estrela, a água dos lagos, um pedaço de céu liquefeito, e assim indefinidamente tua passagem vai multiplicando as coisas com essas cambiantes de luz e magia dos repuxos nos jardins, o giro multicolor das fontes luminosas com a água escalando o ar em cordas de ouro, prata, ametistas; as lágrimas das pedras preciosas escorrendo na saudade dos garimpos e das bateias a água incendiada dos repuxos.
Teu nome soa como um beijo nos meus ouvidos com rumor de cristais partidos e desenhos de seus no perfil das peras.
Muitas vezes tenho visto toda a vida contida apenas no gesto de alguém adorando a beleza na face de uma menina e sabendo que, mesmo que nunca mais a veja, a luz daquele rosto não se apagará mais de seu sonho.
Quem te viu não te esquece mais!
NAS MÃOS DA NINFA
“Coisa maravilhosa forte e cruel é a vida...”
JOHN GALSWORTHY
És luz, como a luz levada através de escuros caminhos.
Sinto-te nos meus olhos, na cumplicidade das fontes, na água incendiada dos repuxos e das estrelas por onde tua cabeleira passa veloz como um cavalo a galope.
Vens de secretos mistérios, com esse desejo que nos dá de ser campo onde apascentarás tuas ovelhas e rebanhos, a ternura dos rios e a meiga oferta das colheitas.
Penso que te devo possuir. Esta posse é necessária como a entrada das raízes na terra. Mas sinto que antes devo banhar-me de inocência para que te possua com a naturalidade instintiva com que colho maçãs nas macieiras.
Estender as mãos para ti – não é um ato que eu possa fazer muitas vezes. Tenho que estar cheio de noite, carregado de inquietações noturnas, com a noite toda espelhada pelo meu corpo como uma envoltura de que não me libertarei, para que ao estender as mãos para ti esse gesto seja como uma aurora irrompendo na minha carne.
Carrego madrugadas no ímpeto do meu desejo. Há cheiro de maresia nos meus cabelos, vertigens de montanhas no meu peito.
Vem como um veleiro para estes mares.
Todo em coisas: eles ficam cheias de música.
Fito o cerne das plantas: escorrem cânticos das resinas.
Os minerais se desfazem em lágrimas nas minhas mãos, como água dos mares na concha dos búzios.
Também tu te dissolverás no meu corpo como uma pérola no oceano.
A praia da minha posse te espera: rola pelas suas areias. Sofro no mistério o silêncio insondável das ninfas.
DÁDIVA CONCEDIDA À VIDA
A música está dizendo-te palavras que não diz a mais ninguém, exceto se ela pudesse ser ouvido pelo mar. O mar, ou os nevoeiros, os lagos em calma. Ah, como eu gostaria de chegar perto de ti a esse hora e descobrir o brilho inaugural das primeiras luzes do dia no teu rosto. Explico: carrego comigo o desejo obstinado de ver as coisas da “mesma maneira” pela qual são vistas por Deus. Ainda agora vou imaginando que quando te levantares amanhã de manhã a aurora há de sorrir refletida nos teus olhos dizendo-te que és jovem e tua graça, dádiva concedida à vida.
REFLEXÕES
Rubens Francisco Lucchetti
“Algum humano, em meio á humana lida, lamenta acaso quem aqui repousa? Chora o teu próprio exílio e não a minha vida: Com a terra por mãe, e o sono por esposa – ó frios hibernais, correi! – que a primavera aqui tem imortal guarida. Quem hesita? Um imbecil. Quem bate? O Rei”.
CHARLES MORGAN
I
Não saber nunca o segredo das pessoas. Como é feroz a solidão de vida nesta morte que vivemos.
II
Há um único momento de amor absoluto: é quando amando uma mulher queremos saber como ela foi no tempo de criança.
III
A ternura. Esta coisa manda que pacifica, mais profunda que o amor porque há na sua essência um desejo de comunhão absoluta, de tão calma identidade que o próprio amor não supera, apesar da violência de sua penetração. A ternura comunica essa ideia de segurança, de realidade subjacente sem a qual sentimos que nos falta um centro de gravidade á nossa vida. Todo poder de arte vem desta capacidade de ternura, desta difusa doçura em que inunda nossas zonas de mistério. É por isso que toda grande arte é sempre uma conquista de paz, um acréscimo de calma á nossa impura turbulência. Calma, quanta força contida nesta palavra.
IV
Pensar numa mulher como numa enseada cheia de sol. Ser como o crepúsculo que modifica a paisagem sem lhe alterar a quietude das águas.
V
Estive hoje pensando na mágoa recôndita de todas as criaturas que se sentem na vida como em país estrangeiro. Falam um idioma tão suave que o mundo não as escuta – não o mundo distante, dos homens ou das coisas estranhas, mas este outro mundo mais frio porque mais próximo e que é constituído pelos seres que vivendo sob o mesmo teto nada sanem de nós mesmos.
VI
Creio que liberdade foi o primeiro nome que no mundo se deu à solidão.
VII
É noite e estou escrevendo e se posso mencionar um desejo é para que, assim como sucede ás estrelas, a Sua vida seja contada em termos de anos-luz.
VIII
Escritor: visitar em silêncio os corações mais distantes e ignorados como se estivesse andando á noite, pela nossa própria casa.
IX
Bem sabe Deus que não tenho inimigos, mas se os tivesse eu os perdoaria aqui.
(Contemplando o “Gran Canyon”)
X
Muitas e muitas vezes sinto-me como um enfermo que, entrando em agonia, dispusesse de alguns segundos para rever a existência de longos anos.
XI
A calma radiação, esta casta e suave atmosfera das jovens que sonham no crepúsculo...
XII
A insensibilidade, a falta de delicadeza da alma, eis o pecado para o qual não há remissão.
XIII
A felicidade não é coisa que nos sucede; devemos construí-la como um arquiteto constrói um edifício. É preciso carregar pedra sobre pedra. É um fracasso da imaginação não subordinar a vida a um vigoroso conceito arquitetônico. Nossa vida é uma catedral: a necessidade da prece e da paz está implícita na severa ordem da construção.
XIV
Tocar a calma da vida é a experiência absoluta e final. Nós lutamos por muitas coisas vazias. Estamos na voragem e não conseguimos ver. Quantos percorrem o caminho até o fim, cegos para o seu próprio equivoco, e se vão embora na angustia de pessoas que entrando e saindo de uma casa nunca param no jardim?
XV
O essencial é não abandonar a palavra, não passar um só dia sem escrevê-la. Não a palavra que todos usam, mas aquela que estão procurando descobrir, tentando ouvir. Possivelmente não estará nos dicionários. As crianças talvez se lembram dela, porque as crianças não tem vergonha de dizer que precisam de ternura.
XVI
Há em certas mulheres uma doçura tão intima como se elas tivessem sido feitas de sombras, de pérolas e sedas. Lembram camurças e veludos. Mulheres que nasceram para proteger, mulheres que são como o repouso de um guerreiro. Seu colo é uma enseada onde ancoram silenciosamente os navios vindos de alto mar.
XVII
Fazer concessões é o principio de toda degradação. Ser intransigente na defesa dos valores profundos de nossa vida, sem contudo chegar á intolerância – esta é a calma determinação dos que aspiram atingir um glorioso objetivo.
XVIII
Humildemente venho trabalhando para que a minha imaginação conquiste um reino de possibilidades insuspeitadas e eu possa olhar a vida sem envergonhar-me de tê-la entre as minhas mãos.
XIX
Tarde quieta. Chuva fina, lenta e fria. Parece que alguém, não sei onde, como? Está tocando piano...
XX
Elegia de inverno: por que estamos sempre nos despedindo dos seres que mais amamos?
XXI
Detesto os que se consideram desgraçados. Até no sofrimento é preciso haver arte. É muito mais puro ser triste do que infeliz.
XXII
Porque é maravilhoso quando este está com a nossa pequena, e, muitas vezes parar a conversa, e os dois ficarem calados, nada dizendo, e ela sabendo que naquele silêncio está sendo mais adorado do que nunca, se tornando mais linda no quieto silêncio. E até agora ninguém sabe como fazer silêncio no meio de uma carta; evidentemente não há de ser deixando um espaço em branco, ou um certo trecho usando palavras mais ternas, de macio sussurro. Para os violinos há surdina, pianíssimo, nos pianos mas na carta, apesar de ser um belo instrumento onde se toca música vinda do coração, não há esse recurso da delicadeza. Existe apenas uma certa espécie de pausa, que é o espaço em branco, mas quem escreve para abrir claros numa carta? Pensa-se que foi distração, ou excentricidade, ou extravagância, ou ainda preguiça de escrever; ou que não se sabe dizer, o que se queira dizer; não se soube descobrir as palavras verdadeiras, e o espaço em branco ficando como sinal de ignorância, não de admirável silêncio, puríssima adoração, calada ternura.
XXIII
Não quero ser Deus. Tenho medo da solidão dos deuses.
XXIV
Hoje, dia triste: escrever tendo pelas palavras o mesmo cuidado que se tem pelos doentes.
XXV
Ter, a essa hora, uma palavra noturna para que as estrelas reconheçam que vivem no nosso pensamento...
XXVI
Nestas horas suspensas da meia-noite, escuto vozes tão profundamente vindas de meu coração que penso estar ouvindo sinos tocando numa cidade submersa...
Do livro inédito ‘Música Secreta’.

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