terça-feira, 13 de setembro de 2011

Vera Egito



Vera é uma das maiores expoentes do cinema brasileiro. A cineasta exibiu recentemente dois curtas-metragens na Semana da Crítica de Cannes e se transformou num dos destaques do festival. 

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
No comecinho do cinema só havia curtas. Então acho que a importância é imensa. Já que os primeiros registros cinematográficos do Brasil - e do mundo todo - são curtas. Pensando na história do cinema nacional, há um curta que, inclusive, está entre os filmes mais lindos que já vi feitos aqui no Brasil. É o "Couro de Gato", do Joaquim Pedro de Andrade. O curta faz parte do filme "Cinco vezes Favela" de 1959 e é uma obra-prima.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acho que simplesmente porque o curta não tem valor comercial. E a grande mídia tende a privilegiar as obras que fazem parte do mercado. O que, pensando bem, faz sentido, já que estamos falando de uma massa muito abrangente de leitores. Porém, os curtas têm espaço em uma mídia mais alternativa como blogs e sites. Além disso, durante os Festivais, os curtas que fazem parte das mostras, ganham espaço especial, inclusive na grande mídia. O Festival de Curtas de SP, por exemplo, tem um site super legal que publica textos sobre todos os filmes em cartaz. É uma maneira bacana de divulgar os filmes.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acho que seria legal reunir quatro ou cinco curtas e exibí-los juntos, tanto na TV quanto nas salas de cinema. Um preço promocional também seria interessante porque a questão é que os curtas, no geral, têm caráter experimental. É um formato que, por ser de baixo orçamento, dá liberdade aos realizadores. Isso faz com que os filmes não tenham muito alcance comercial. Por isso é complicado cobrar ingressos caros, ou mesmo cobrá-los. Nesse sentido, a internet acabou virando um ótimo meio de divulgação para os curtas. No caso de curtas feitos para a tela grande, ou seja, finalizados em 35mm, com som Dolby e tudo o mais, os festivais são o melhor meio. Festivais de Curtas são sempre muito bacanas. O público é muito interessado e a troca entre os espectadores e realizadores sempre acontece de um jeito ótimo.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Possível é, claro. Mas acho ruim um cineasta ficar preso a apenas um formato, seja ele qual for. O curta não é exatamente um trampolin, acho que é um momento de experimentação. Simplesmente porque estamos falando de orçamentos menores e comprometimentos também menores se compararmos com um longa.

O longa metragem acarreta obrigações com distribuidora, bilheteria, altos orçamentos. Tudo isso muda muito a postura do realizador em relação a obra. O curta tem menos obrigações, por assim dizer. E isso faz com que a criação seja mais livre, mais experimental. Porém, o longa também é um formato interessante por ser a maneira clássica de se contar uma estória em audiovisual. Por ter também mais abrangência comercialmente. Acho que um realizador pode alcançar todos os formatos, do vídeo-clipe ao longa passando por curtas, séries para a TV e telefilmes. O importante é produzir sempre.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Acho que não. Nunca senti isso. Grandes cineastas que eu, inclusive, admiro muito, me tratam como uma colega. Embora eu só tenha feito curtas e embora eles sejam muito mais experientes que eu. É claro que eu estou em uma fase diferente. Estou começando. Sou uma iniciante e me coloco sempre como tal. Não acho que isso seja marginalização. É apenas um fato.

Todos os festivais em que os curtas "Espalhadas" e "Elo" estiveram foram muito organizados e muito profissionais. Tanto os que exibiam curtas e longas quanto os exclusivamente de curtas. Não há discriminação. O que entendo é que um cineasta que já realizou curtas, longas, séries para TV, clipes, enfim, é um cineasta mais completo do que eu. Ou do que qualquer outro que só tenha feito curtas. A experiência em diversos formatos traz visões diferentes e uma noção muito mais completa da profissão de diretor. Portanto, um diretor que só faz curtas pode ser visto como um profissional menos completo, ao menos naquele momento. Mas, de novo, não acho que isso seja marginalização, é apenas uma constatação e que, dependendo do caso, pode fazer muito sentido.

Na 62ª edição do Festival de Cannes você exibiu dois curtas ‘Elo’, seu segundo filme, abriu a mostra, enquanto o desfecho ficou por conta de Espalhadas pelo Ar’, projeto apresentado como trabalho de conclusão do curso de audiovisual na Universidade de São Paulo (USP). Essa foi a primeira vez que o público assistiu a duas produções de um mesmo autor. Qual é a importância deste feito para você e para o curta-metragem?
Para mim foi a experiência de estar no Festival de Cannes. Um evento tão importante onde tantos artistas que eu admiro já passaram. É inesquecível. Para os curtas foi ótimo pois é uma plataforma de exibição maravilhosa. Por conta de Cannes os curtas também foram exibidos na Cinemateca Francesa em Paris e participaram de outros eventos.

A Semana da Crítica e o próprio Festival de Cannes tratam os curtas com muito carinho. Senti como se eles vissem novas histórias de vida começando. Novos realizadores se formando e o fato do festival apoiar esse começo deixava todos muito orgulhosos. O clima de Cannes é incrível. Todo mundo ali ama muito cinema e isso é sentido em cada conversa, em cada exibição. Foi um feito inédito a exibição dupla. Mas isso aconteceu um pouco por acaso. O "Espalhadas pelo Ar" havia ganhado o prêmio de "Descoberta da Crítica Francesa" no Festival de Filmes estudantis de Poitiers. Por conta desse prêmio, ele seria exibido no contexto da Semana da Crítica. Na mesma época meu segundo curta "Elo" ficou pronto e foi enviado para a seleção do festival. Os selecionadores da Semana da Crítica, que já estavam com o "Espalhadas" por conta de Poitiers, gostaram muito do "Elo" e decidiram exibir os dois, como uma forma de mostrar "a evolução de uma jovem cineasta" segundo as palavras deles mesmos.

Você estudou na Escuela de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. Como foi a experiência?
Foi em janeiro de 2003, ano em que eu ingressei na faculdade. Fiz um curso de férias de Guión Cinematógrafico e foi lá que eu escrevi pela primeira vez. A escola é quase um sonho. Estudantes de cinema do mundo inteiro em uma fazenda no meio do nada. Porque a Escola fica isolada. E lá os alunos moram, escrevem, produzem e finalizam os filmes. É um barato. Por ser uma escola internacional, sustentada por doações externas e pelo pagamento dos alunos, lá não se sofre tanto com as carências que existem em Cuba.

Eu mesmo tinha uma idéia super romântica sobre a Ilha até conhecê-la de verdade. Em Havana há um policial em cada esquina. Você é vigiado, literalmente. Não há internet, apenas em Hotéis para turistas e cobrada por hora em dólares. Ou seja, inacessível a população. Há uma geração inteira que desconhece a rede. As bancas de jornais só têm jornais do governo. A televisão exibe cinco canais apenas, todos do governo. Enfim, eu não tinha essa dimensão da repressão em que se vive por lá. Só entendi quando fui.

Mas Cuba é um país incrível por conta de seu povo e de sua cultura, realmente impressionantes. E a Escuela me ensinou muita coisa. Tenho até hoje guardado o roteiro que escrevi lá. Quem sabe um dia ele seja filmado.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Acabei de escrever, junto com o Heitor Dhalia, um roteiro para curta-metragem que será dirigido por ele. Como diretora não tenho nenhum projeto de curta no momento.
Estou dirigindo filmes publicitários na Paranoïd Br, finalizando um clipe da cantora Céu e escrevendo o segundo tratamento do roteiro do que será meu primeiro longa metragem.

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