terça-feira, 3 de abril de 2012

Marat Descartes

Destaque no Teatro, Marat, ultimamente, vem recebendo muitos convites para trabalhar no cinema. Trabalhou em ‘2 Coelhos’ e ‘Os Inquilinos — Os Incomodados que Se Mudem’, de Sergio Bianchi, será o seu primeiro protagonista no cinema.



O que te faz aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
Um bom roteiro, uma boa história... isso é o que sempre me seduz primeiro quando topo fazer um curta; e é claro, uma turma bacana, porque os curtas de que participei até hoje quase sempre foram experiências criativas de turmas - ou de faculdade, ou recém formadas -, onde a experiência do fazer coletivo que envolve o cinema é vivenciada em sua radicalidade, e surge com força o tal espírito do "cinema de guerrilha", aquela equipe cheia de vontade, cada um pronto pra assumir qualquer função, se preciso for... enfim... essa experiência de um coletivo completamente centrado na criação de uma cena, de uma imagem, é algo muito prazeroso vivenciar, e acho que quanto mais afinidade essa "turma" tiver, mais facilmente isso se vivencia.

Como é o seu método de preparação para atuar em curtas? Difere dos trabalhos que faz em teatro, seriados e longas?
Entre o curta e o longa, e até mesmo os seriados, não vejo muita diferença no que toca a preparação para a atuação. Mas entre eles e o teatro sim. No teatro existe uma convenção, uma espécie de acordo entre o palco e a platéia de que aquilo que ela está vendo é uma representação da realidade, feita ao vivo, em cima daquele espaço cênico, e se algum imprevisto acontecer, se um refletor cair, esse acordo garante que mesmo após essa intervenção da realidade, a platéia voltará a crer na representação. No cinema, ou seriados, por mais ousada ou convencional que seja a proposta, existe sempre a intenção de criar a ilusão de que aquilo que está sendo visto realmente é a realidade. Te mostrando detalhes, te fazendo ver por vários ângulos, enfim, conduzindo teu olhar, o cinema pretende te fazer esquecer completamente de que aquilo não é verdade, de que aquilo é uma criação artística. E me parece que é então que o ator tem que ser mais verdadeiro do que nunca, mais sem máscaras, limpo, simplesmente se colocando nas situações do roteiro, como se aquilo que acontece com a personagem, através dela realmente passasse a acontecer com você, no momento do "ação!". As equipes de figurino, de arte, de fotografia, o próprio roteiro, todos já criaram meticulosamente a ilusão de que aquela personagem, de que aquilo que está sendo visto é real, então me parece que se o ator simplesmente respirar tudo isso, se simplesmente fizer uma espécie de doação dos seus órgãos, nervos e pele, já estará de bom tamanho pra que a magia do cinema se estabeleça.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Boa pergunta. Acho que ela vai no mesmo lote de perguntas como: Porque um longa nacional geralmente não permanece mais do que um mês em cartaz?

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
E aí já respondendo a próxima pergunta, me parece evidente que é preciso haver alguma política pública no que se refere à exibição das produções nacionais, seja curta, ou longa, ou doc, pra que elas possam não ficar fadadas a serem vistas tão poucas vezes e por tão pouca gente no cinema, pra depois caírem em alguma prateleira escondida de uma vídeo locadora. Acho que como no teatro, um mês é um tempo mínimo pra que o "boca a boca" comece a funcionar, pra que as pessoas saibam por quem já assistiu, e comecem a ir assistir, e recomendar para os próximos. Portanto vai minha sugestão pra algum deputado ou vereador sem assunto pros próximos 4 anos: salas de projeção e/ou tendas de projeção em praças públicas, em que só sejam exibidas produções nacionais, nos mais diversos horários, a preços populares. Não adianta nada a política cultural fomentar a produção cinematográfica se não garantir que essa produção vai ser vista pela população. E é o que vem acontecendo: se o filme não enche as salas nas primeiras semanas, tchau, um abraço, e o cineasta já pode começar a correr atrás do próximo edital, pra o seu próximo filme, e uma cultura cinematográfica não se estabelece de fato no país, apenas se chega a um número respeitável de produções.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acho que é possível sim, mas acho que é inevitável a vontade de se fazer um longa, depois que se tem a experiência de um curta. Mas conheço diretores que adoram só fazer curtas, que fazem curtas entre um e outro projeto de longa, ou que depois do primeiro longa nunca mais voltam aos curtas. E nesse último caso, talvez exatamente porque os curtas tenham essa visibilidade ainda mais limitada que a dos longas, fadados a serem vistos - quando muito - nas poucas exibições de alguns festivais de curtas dentro e fora do país.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Então não sei se existe uma marginalização, mas talvez uma resignação, uma triste consciência de que um curta também pode dar sim muita satisfação artística, mas terá provavelmente uma carreira... curta.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
No momento não, mas já dirigi um curta e gostei muito da experiência. Chama-se "Uma Confusão Cotidiana", baseado numa crônica de Franz Kafka, e foi feito junto com a minha turma - de atores que se formaram juntos na EAD -, inaugurando um coletivo que chamamos de Fuleragem Filmes, que hoje já tem três outros curtas finalizados, mas que atualmente anda inclusive um pouco parado, exatamente porque todos esses atores estão atuando nas tantas produções de ultimamente. Mas tenho vontade sim de dirigir um curta novamente.

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