quinta-feira, 7 de março de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


LÁBIOS DE FOGO
(versão romanceada do filme)
por Rubens Francisco Lucchetti



O dr. Sam não era nenhum herói. No entanto, já que havia uma pessoa em perigo, era seu dever fazer tudo para salvá-la.
Arrastando-se de bruços contra o chão do convés do “Ulysses” e esgueirando-se por entre os escombros produzidos pela colisão, o dr. Sam e o outro homem foram avançando, enquanto tochas iluminavam os trabalhos de salvamento. Finalmente, atingiram o ponto onde se encontrava o marujo imobilizado pela viga. Ao primeiro e rápido exame médico, o ferido não apresentava ter quebrado nenhum dos membros, muito embora – era evidente – não poderia dançar tão cedo.
O marujo deu um suspiro, e o médico perguntou:
– Que aconteceu?
– Eu estava segurando a corrente, – explicou o homem, – quando, de repente, senti tudo desabar perto de mim. Não estou precisando de médico. Preciso é de uma turma de trabalhadores de emergência.
A embarcação inclinou-se para um dos lados, e o madeiramento rangeu. Ruído de metal se fez ouvir em todo o navio. O dr. Sam sentiu o coração quase parar.
– Vamos tirá-lo daí – disse o médico. – Como se chama?
– Tony – respondeu o jovem. E acrescentou, mentindo: – Tony Hachenhausen.
– Quer que avisemos alguém da família ou alguma pessoa conhecida? – Indagou o médico, preparando-se para sair.
– Ninguém. Diga apenas aos rapazes que estou com fome. Gostaria que me trouxessem uma garrafa de cerveja.
Assim que o médico tornou a agachar-se para poder voltar a um lugar seguro do navio, o chefe do porto comunicou-se pelo rádio com terra firme, a fim de ordenar a vinda de uma turma de socorro com o equipamento necessário... e também o corpo de bombeiros, pois tinham descoberto fogo num dos porões da popa, onde estava armazenada grande quantidade de borracha.
Quando o dr. Sam inquiriu o comandante do navio a respeito do marujo acidentado, soube que pouco se conhecia a respeito dele. Soube que o marinheiro fora admitido na tripulação quando o navio passava pela Venezuela.
– Gostaria de examinar a cabina que ele ocupa, capitão, se o senhor o permitir.
O comandante não fez objeção a isso, e o médico foi conduzido escada abaixo. Junto ao beliche de Tony via-se uma fotografia pregada contra a parede. Nela apareciam o simpático marinheiro, um sujeito de olhar mal-encarado, um negro grandalhão e uma loura. Pareciam estar no convés de um barco.
Depois de estudar por algum tempo a foto, o dr. Sam abriu o escaninho do marujo. Não se mostrou muito surpreso, quando deparou com um revólver em seu interior. A arma estava carregada, pronta para ser usada, como se estivesse à espera de algum acontecimento.
Tão logo o “Ulysses” foi rebocado até Santa Nada, os bombeiros da cidade começaram a jogar água no interior de seus porões. Um guindaste da Marinha norte-americana, depois de colocar-se ao lado do cargueiro, iniciou o trabalho de retirar a viga que imprensara as pernas de Tony.
Enquanto as horas do dia iam avançando, o fogo ficava mais intenso dentro do cargueiro. Em breve, o chefe do porto viu-se diante de um cruel dilema. Combater as chamas com mais quantidade de água acabaria por provocar o afundamento do navio em pleno porto, o que, por sua vez, importaria em nova e exaustiva tarefa, ou seja, a de trazer novamente à tona o cargueiro submerso. Era evidente que, se isso acontecesse, ele perderia o emprego. Por outro lado, se não continuasse jogando água no porão incendiado, o fogo se espalharia e passaria para o porão adjacente, carregado de nitrato. Bastaria as chamas lamberem essa carga, para que o navio e metade da cidade voassem pelos ares numa pavorosa explosão.
O funcionário representante da Marinha no salvamento de Tony era um tenente, Sellers. Sujeito corpulento e rijo, entregava-se ao trabalho com uma dedicação e uma determinação de quem não admite a possibilidade de ver fracassada a tarefa.
– Vamos lançar mão de macacos hidráulicos – disse ele com firmeza para o dr. Sam. – Se eles resistirem, retiraremos o homem esta noite. Mas se não resistirem...
Enquanto isso se passava, o marinheiro preso pela viga tocava calmamente sua harmônica, como se estivesse num piquenique.
Quando o tenente e o dr. Sam voltaram à seção avariada do navio, Tony saudou-os despreocupadamente.
– Olá, tenente. Novamente aqui? Como está indo o fogo lá no porão?
Sellers não se preocupou em esconder a gravidade da situação.
– Está se tornando incontrolável. Esperemos mais vinte e quatro horas. Vou pôr em ação os macacos hidráulicos.
Suando em bicas, o dr. Sam permaneceu calado junto ao tenente. Enquanto isso, os marinheiros que trabalhavam na operação de salvamento suavam também copiosamente. Um guincho agudo e penetrante, seguido de outro que parecia produzido por forte fricção metálica, encheu os ares. A pesada viga moveu-se imperceptivelmente; e Tony retesou os músculos, fazendo um esforço tremendo para livrar as pernas. Mas logo um estalo forte foi ouvido, como se um dos cabos tivesse arrebentado violentamente; e tudo ficou na mesma.
Sellers abanou lentamente a cabeça.
– Meus rapazes continuarão trabalhando lá fora para chegar até você. Usaremos tochas para iluminar as manobras, mas não creio que tenhamos tempo de chegar até aí. – E voltando-se para o médico: – Doutor, o senhor pode operá-lo desta posição em que estamos?
Pela primeira vez, a calma do marinheiro desapareceu.
– SAIAM DAQUI! – Berrou ele, fora de si. – Sei o que estão querendo fazer! Querem cortar-me pela metade e tirar-me daqui de qualquer maneira. Afastem-se de mim! Tirem-me daqui inteiro... ou abandonem-me à sorte...
– Não quer mesmo que comuniquemos sua situação a alguém? – Perguntou o dr. Sam, estendendo para o rapaz a fotografia e a arma que havia encontrado no camarote. – Conhece isto?
O marinheiro fitou apenas o revólver.
– É uma lembrança de um almoço a que compareci – respondeu. – O senhor não fará de mim a metade de um homem. Nada feito, doutor.
Depois de terem voltado ao cais, o tenente disse ao médico que fosse descansar um pouco, pois sua presença não seria necessária nas próximas horas. O dr. Sam afastou-se então ao longo do píer. Somente depois que o homenzarrão negro emparelhou ao seu lado é que percebeu que tinha sido seguido todo o tempo.
– Será que eles retiram aquele rapaz antes que o fogo destrua o navio? – Soou a voz do negro.
O dr. Sam voltou a cabeça para o lado e reconheceu um dos homens que tinha visto na fotografia encontrada na cabina de Tony.
Naquele instante, alguma coisa o fez sentir uma nova emoção. Talvez pudesse chamar aquilo de esperança.
– Gostaria de ajudar o rapaz? – Indagou ao negro.
Obteve um aceno afirmativo como resposta.
Num bar das vizinhanças, o corpulento nativo, que declarou ser conhecido no meio do povo como Jimmy-Jean, contou-lhe a história de Tony.
– Ele é um belo rapaz – começou. – E as moças viviam batendo à sua porta o dia todo. Seu verdadeiro nome? Tony Finn. Este outro aqui – continuou, apontando para a foto – é Felix Bowers. O preto sou eu. O barco, o “Ruby”, pertencia meio a meio a Felix e a Tony. A tripulação era eu. Fazíamos navegação de cabotagem de pequeno porte ao longo das ilhas. Era uma boa vida. Acho que se poderia dizer que essa moça foi quem começou toda a complicação.

Ela se chamava sra. Canaday e tinha mais dinheiro do que lealdade ao marido. Alugara o “Ruby” para pescar; mas, na verdade, queria estar perto do simpático Tony. Ele, porém, não lhe dava importância. Vivia sentado no convés, tocando harmônica e rindo do assédio que a moça lhe fazia. Isso acabou por deixá-la furiosa e a fez abandonar o barco com os olhos fuzilando de ódio.
Felix mostrou-se indiferente por ter perdido a freguesa. Mas era um filósofo. “Num dia se ganha, em outro se perde”, costumava dizer. Este teria sido, certamente, o seu lema de família, se ele tivesse família. E a partir de então, ao invés de lindas passageiras, passaram a transportar rum.
Um dos fregueses de Porto Rico era dono de um cabaré. Certa noite, Miguel, o barman desse cabaré fez uma proposta aos sócios do barco.
– Tudo que terão de fazer – disse Miguel – é levar uma passageira para Santa Nada. Ela...
– Uma mulher? – Grunhiu Felix. – Num navio da espécie do nosso? A polícia poderia...
– Nada sei sobre a polícia. Um americano rico está pagando tudo.
E foi assim que os dois sócios travaram conhecimento com esse americano rico e sua linda amiga. A mulher não pertencia a nenhum país. Não possuía papéis ou passaporte. Viera de Havana, onde outro americano cheio de dinheiro a contrabandeara da Flórida.
– Quero fazer tudo que estiver ao meu alcance por Irena – disse o americano, sentindo-se muito pesaroso. – Mas tenho de voltar para Detroit. Ela perdeu tudo que tinha, durante a guerra. Foi em Berlim. Quando tudo terminou, os russos entraram então em ação. Não devem ter sido nada interessantes aqueles anos do após-guerra.
Tony e Felix não estavam muito dispostos a aceitar aquela passageira, mas acabaram fechando o negócio. Estipularam, porém, uma cláusula segundo a qual, quando ela desembarcasse em Santa Nada, estaria fora da responsabilidade de ambos.
Ao raiar do dia, ela já estava no cais, elegantemente vestida e com um ar de quem se mostra alheia a tudo, sem expressão. Trazia consigo uma pequena valise. Mulheres do tipo de Irena, embora cativantes, constituem um problema para os funcionários do Departamento de Imigração.
Felix demonstrou logo o seu desprezo por Irena. Em sua opinião, ela era do tipo de mulher que está à procura de um homem que tome conta dela. Raramente dirigia-se à passageira sem zombaria. Isso foi o bastante para despertar o instinto romântico que Tony trouxera de Indiana, fazendo com que ele tomasse sua defesa.

Logo no primeiro dia de viagem, Irena censurou a atitude dos homens que matam por esporte, ao ver Felix empenhado em pescar um grande peixe. Disso se valeu o peixe, que, num forte repelão, escapou da isca, ganhando novamente a liberdade marinha. Felix não vacilou. Obrigou a passageira a pagar o prejuízo causado, que estipulou em cinqüenta dólares, incluindo o preço da linha perdida. Mas, para espanto de Tony, depois de receber a nota em pagamento, Felix atirou-a no mar.
Naquela primeira noite, os homens cederam à passageira a única cabina do barco, indo ambos dormir no convés. Não podendo conciliar o sono, Felix ouviu Irena deixar a cabina, alta madrugada, e subir a escada do passadiço. Ele levantou-se e encaminhou-se para ela.
– Volte para a cabina! – Ordenou.
– Está muito quente lá dentro. Não consigo dormir – respondeu a passageira, erguendo os olhos para ele. – Por acaso se sente ofendido com a minha presença no convés? Estou gozando um pouco de paz e tranqüilidade. Por um momento, cheguei a sentir-me em segurança. Começo a ter esperanças de que tudo continue correndo normalmente depois que eu desembarcar em terra.
– Volte para a cabina – insistiu Felix num tom enérgico.
Não obstante, ela continuou falando tranqüilamente:
– Às vezes eu me mostro cruel, às vezes sinto ódio de meus semelhantes. Mas eu lhe conto a razão. É que venho fugindo há muito tempo. Quanto a você, estará fugindo de alguma coisa? Alguém já o atormentou?
A enorme mão de Felix quase a atingiu, quando ele repetiu a ordem:
– VOLTE PARA A CABINA!

Os dias transcorriam tranqüilamente, fluindo como as águas mansas em volta das ilhas. Felix e Jimmy-Jean alternavam-se na roda do leme, enquanto Tony tentava confortar a passageira, mantendo-se à proa. Certo dia, o motor enguiçou; e, enquanto Felix procedia aos reparos, Irena e Tony aproveitaram para dar um mergulho e nadar um pouco. Quando subiram de volta ao barco, ela parecia uma deusa do mar. Se percebesse o olhar de intimidade trocado entre ela e Tony, Felix seria capaz de matá-la. Mas, na verdade, os olhos de Tony expressavam apenas gentileza e afeição.
Quando o barco recomeçou a marcha, Tony sentou-se ao lado de Irena no passadiço e contou-lhe toda a sua vida. Falou-lhe de como viera da Coréia e também do seu insucesso de ajustar-se ao trabalho em sua terra natal, Indiana. Referiu-se aos aborrecimentos que causara ao pai, um banqueiro, em virtude de sua indolência. Depois, falou-lhe sobre o companheiro de colégio que possuía uma pequena escuna e que o convidara para acompanhá-lo numa viagem às Caraíbas.
– As Caraíbas pareciam muito distantes de Indiana – disse Tony. – Gostei de lá. Depois, meu companheiro voltou para casa. Então, conheci Felix. Divertimo-nos e certa noite tomamos uma bebedeira. Foi depois disso que resolvemos comprar este barco. Que melhor vida pode haver, não acha?
– E que acontecerá quando se cansar desta vida? – Indagou Irena.
– Prometi a meu pai voltar para casa quando aparecesse o primeiro fio de cabelo branco em minha cabeça. Como isso até agora não aconteceu...

As coisas corriam bem, exceto quando Felix se voltava contra a passageira, atingindo-a com seu sarcasmo. Nessas ocasiões, Tony corria em socorro de Irena.
Finalmente, no dia em que Felix apareceu no convés, depois de dar uma busca na cabina da jovem, e calmamente lançou ao mar o revólver que achara em sua bolsa, Tony não pôde mais resistir. Perdeu a cabeça. Saltou sobre o companheiro como uma fera e atingiu-o com a direita e depois com a esquerda. Felix foi esmurrado violentamente no rosto. Em seguida, os dois homens rolaram pelo chão do convés, desferindo murros sobre murros. Por fim, Tony agarrou o companheiro pelo pescoço e teria liquidado com ele, se Jimmy-Jean não os tivesse apartado a tempo.
– Acalmem-se, amigos – aconselhou o negro. – Agora que já se esmurraram bastante, podemos continuar nossa viagem.

Ao cair da noite, chegaram à enseada de uma ilha. As luzes brilhavam em terra, e foguetes estouravam no ar.
Jimmy-Jean foi o primeiro a pedir permissão para descer do “Ruby” e ir em busca de distração. Tony convidou Irena para descer também e irem dançar juntos na festa que estava sendo realizada na ilha. A princípio, a moça parecia indisposta, mas acabou acedendo ao convite. Felix concordou igualmente em participar da festa; e foram todos para terra, onde havia uma verdadeira multidão que bebia rum e se divertia muito.
Tony notou o primeiro sinal de pânico nos olhos de Irena, quando os foliões atiraram confete em sua boca e lançaram contra ela bolas coloridas que espocavam constantemente. O rapaz tinha uma vaga idéia daquilo que poderia estar assustando a jovem e que lhe veio à lembrança no meio da ruidosa alegria da ilha.
– Vamos, não se assuste! Tudo isso não passa de simples brincadeira de carnaval.
Então, Irena mostrou-se mais calma.
As ruas estavam cheias de foliões mascarados. Aqui e ali surgiam dragões, cobras, monstros chineses, que eram aplaudidos ou vaiados pela multidão delirante, num vaivém interminável ao longo das ruas. De repente, a jovem não conteve mais a tensão dos nervos e explodiu em prantos, diante daquela algazarra medonha. Com um sorriso de ironia, Felix puxou-a para um beco deserto, junto ao cais, onde ela pôde recobrar a calma.
– Perdemo-nos dos nossos companheiros, e será difícil encontrá-los nessa multidão – disse ele, apontando para o povaréu adiante. – Já sei o que vou fazer. Beberei um trago.
E já se preparava para deixá-la sozinha no beco, quando reparou melhor no rosto de Irena e no temor que ainda lhe transparecia no semblante.
– Não gosto de ver gente perdida no meio da rua. Você não poderá ficar sozinha aqui – e continuou levando a moça consigo.
Numa taverna adiante, pediu rum para dois. Enquanto bebiam, Irena disse:
– Você me odeia. Por quê? Que lhe fizeram as mulheres? – Os olhos dela perscrutavam-lhe a fisionomia. – É casado?
– Sim. Ainda sou casado, pelo que sei. Casado com uma linda mulher... tão linda quanto você. Tive uma fase feliz na vida, em companhia dela... Até o dia em que a conheci melhor. Então, tudo se transformou. Compreendi que ela possuía a alma de uma aranha.
– É por isso que leva essa vida errante? Ou será que é procurado pela polícia?
– Se eu me apresentar à polícia, eles não me rejeitarão.
De repente, ele pareceu sentir-se aborrecido com as perguntas que Irena lhe fazia.
– Não vamos ficar aqui sentados como dois namorados conversando – retrucou. – Você é apenas... uma carga do navio.
– Não se preocupe comigo – continuou a jovem. – Não lhe estou pedindo piedade. Mas você estará preso a mim, e eu a você, enquanto durar a viagem. Portanto, diga o que deseja.
– Então... mantenha-se afastada de Tony. É tudo. Tenho conhecido outras como você. Deu azar na vida e é suficientemente linda para fazer qualquer um que a toque pagar pela sua infelicidade. Tenho visto Tony com muitas pequenas. Diverte-se com elas e depois as deixa de lado. Mais cedo ou mais tarde, ele irá querer voltar para casa. Até agora tem conseguido livrar-se de todas. Nada de compromissos, nada de armadilhas...
– Ele sabe cuidar de si mesmo.
– Ninguém sabe cuidar de si mesmo. Acho bom afastar-se dele, repito. Conserve essas mãos venenosas longe de Tony.
Os olhos de gata da jovem, adoráveis e sedutores, fixaram-se nele.
– E... quanto a você?
– Se tem alguma esperança a meu respeito, trate de esquecer isso. Odeio gente azarada na vida. Conserve-se ao lado de homens que gostem do seu tipo. Homens como aquele sujeito nervoso de Detroit. Deixe Tony em paz...
E, com isso, deram por terminada a conversa.
Voltaram, então, ao navio, onde ainda podiam ouvir a algazarra dos foliões em terra. Irena retirou-se imediatamente para a sua cabina. Pouco depois, a porta se abriu. Então, em meio à escuridão, Felix avançou cautelosamente. Tinha um sorriso cruel, ao notar que Irena recuava assustada, numa atitude instintiva de defesa. De repente, ele agarrou-a e beijou-a com violência... Um beijo que mais parecia uma maldição. Ela deixou-se ficar quieta, incapaz de resistir-lhe. Quando Felix levantou o rosto, tinha os cantos da boca retorcidos.
– Que é isso? Está querendo mais? – Perguntou ele.
– Procuro alguém que me trate com carinho – soou a voz da jovem.
Um misto de desejo, ódio e melancolia invadiu o peito de Felix.
– Eu não costumo cortejar mulheres como você – retrucou ele com desprezo, retirando-se.



A costa de Santa Nada, para onde o barco se dirigia, surgiu verdejante, sob o sol do meio-dia. Pouco depois, o “Ruby” atracava no cais. A cidade estava mergulhada na siesta. Por isso, apenas alguns pescadores nativos viram a passageira desembarcar, de valise na mão.
– Aqui termina nossa responsabilidade com você – disse Felix secamente. – Siga adiante e encontrará um táxi. Não dê muita gorjeta ao motorista, e ele se esquecerá de você a partir do momento em que a deixar à porta do hotel.
Irena já começava a afastar-se para embarcar no táxi, quando o sócio de Felix lançou um protesto.
– Espere. Você não pode abandoná-la nesta cidade.
– E por que não? Foi isso que combinamos. Largue as amarras, Jimmy-Jean.
– Você tem um mau instinto, rapaz – gritou o outro.
E, com a agilidade de um felino, Tony saltou para o cais e gritou novamente, para o sócio:
– Vá para o inferno. Deixarei minha bagagem a bordo. Virei buscá-la depois. Alguém tem de tomar conta da moça.
Irena tentou protestar, quando o rapaz a alcançou, tomou-lhe a bagagem e ofereceu-se para ajudá-la. Tony, porém, não lhe deu atenção e continuou a seu lado.



Por diversas vezes, no decorrer daquela semana, Irena tentou dizer a Tony certas coisas que ele já conhecia de antemão.
Numa tarde, quando Tony a procurou no quarto de hotel, para dar-lhe de presente uma blusa nativa, encontrou-a arrumando a única valise que trazia como bagagem. A princípio, ansioso para ver a reação de Irena diante do presente, ele não percebeu o que ela estava fazendo.
– Vista isto! Experimente-a – disse ansiosamente, com a alegria própria de um colegial.
Obedientemente, ela afastou-se para trás do biombo, a fim de experimentar a blusa que lhe era oferecida. Enquanto a vestia, perguntou, sem que Tony pudesse vê-la:
– Tem visto Felix?
– Eu o vi ligeiramente num bar. Parece que está tentando uma nova experiência pessoal: quer ver se consegue beber em apenas uma semana todo o rum desta ilha.
Quando ela reapareceu, Tony aplaudiu entusiasmado. Entretanto, Irena referiu-se ao presente de uma maneira quase amarga.
– Acho que teria sido melhor se me tivesse dado um tipo de roupa que torne a gente invisível.
– Por que diz isso? – Indagou Tony, com surpresa.
– Terei de sair daqui – explicou ela, apontando para a valise já fechada. – É sempre a mesma coisa. A mesma coisa que se repete sempre. A mesma tabuleta de sempre à minh a frente: NÃO PARE.
Fez uma pausa, soltou um suspiro e completou:
– O dono do hotel achou melhor sugerir às autoridades uma investigação sobre mim.
– Vou quebrar a cabeça daquele sujeito!
– Isso só iria complicar ainda mais as coisas. Atrairia a polícia. Esqueça isso e me esqueça também. É como seu amigo Felix diria: sou perita em escapar de um lugar para outro.
Tony limitou-se a olhá-la, durante alguns segundos, antes de dizer:
– Então, será melhor ensinar-me alguns dos seus truques, já que, de agora em diante, andaremos juntos... de um lugar para outro. Quer casar comigo?
Irena sentiu-se sensibilizada com aquela proposta imprevista para ela, mas procurou disfarçar a emoção que estava sentindo.
– Acha que me deixariam ficar, pelo fato de eu ser sua esposa?
– Se eles não permitirem, – respondeu Tony, – continuaremos rodando o mundo juntos. Cuba, Venezuela, México e finalmente Estados Unidos. Essas coisas podem ser arranjadas. Consegue-se obter os papéis. Tudo o que é necessário é dinheiro.
– E que fará você para obtê-lo? Escreverá talvez para seu pai em Indiana... Digamos que escreva assim: “Papai, quero comprar o futuro de uma mulher em dificuldades com a polícia de dois continentes.”
– Não – respondeu Tony. – Papai não é a solução para este caso. Mas hei-de encontrá-la.
– Volte a falar com Felix e peça que ele lhe faça um sermão sobre as mulheres do meu tipo. Eu não presto. Venho passando de mão em mão. Tenho vivido entre ruínas. Exércitos têm marchado sobre mim. Meu rosto...


– É um lindo rosto – cortou Tony, abraçando com carinho Irena. – Olhando-a assim, lembro-me do dia em que você nos esperava no cais, de valise na mão. Tinha um ar de bravura e ao mesmo tempo de calma e deslumbramento.
– Que coisa maravilhosa é a gente ser americano. Vocês CONFIAM!
A princípio, Irena denotava ironia nas palavras... mas acabou deixando-se envolver pelos braços de Tony...

Felix estava no mesmo bar em que Tony já o havia encontrado. E continuava dando mostras de querer esgotar o estoque de rum da ilha. Tony dirigiu-se para ele e falou-lhe serenamente.
– Quero conversar com você, Felix. Vou fazer-lhe uma proposta. Pretendo fazer mais uma viagem com nosso barco e espero que seja a maior de todas. Entrei em contato com Miguel, e ele tem algo interessante.
– Basta de passageiros – retrucou Felix com maus modos e sob a ação da bebida. – Transporto apenas carga.
– Mas trata-se justamente de carga. Ele tem pressa do embarque e paga bem. Mais uma viagem, e depois venderemos o barco. Quero ir embora daqui.
Por um momento, Felix pareceu sóbrio.
– Sozinho?
– Não exatamente sozinho... – Tony fez uma pausa e depois concluiu a frase. – Vou casar com ela.
– Claro! – Exclamou o outro, com um gesto largo e selvagem. – Ela não presta. Vai enganá-lo e arruinar sua vida. No dia em que lhe fizerem melhor proposta, ela o abandonará. – E baixou o tom de voz intencionalmente: – Por tudo isso, naturalmente, você vai casar com ela.
– Já tinha decidido isso antes de vir aqui.
– Ah, de modo que, para realizar o casório, teremos antes de fazer uma viagem. Pois muito bem... Viaje você. Pode ir. Não precisa da minha companhia. Agarre-se a Jimmy-Jean, e saiam por aí singrando as tranqüilas águas azuis. Aproveitem a viagem como um presente. Um presente de casamento. Pode utilizar-se do navio e de toda a carga. Um presente meu para a noiva.
– Darei a você a metade do lucro, conforme sempre fizemos – foram as palavras finais de Tony. – Terá a sua parte no negócio...
E foi assim que, na noite seguinte, tendo a bordo a carga de contrabando, o “Ruby” estava pronto para navegar novamente. Nas proximidades de Porto Rico, teriam de aguardar, num determinado ponto fora da costa, até uma hora depois da meia-noite. Duas luzes piscariam como aviso. Em caso de perigo, não haveria luz alguma.
Irena pedira a Tony que a deixasse ir com eles; mas o rapaz, é claro, recusou-se a permitir isso. Seis dias não era muito tempo para a moça aguardar a sua volta. E, então, teriam o dinheiro necessário para começar uma nova vida. Apenas seis dias, e Tony não mais a deixaria sozinha em parte alguma.

A viagem decorreu sem dificuldade: três dias de sol, com Tony espairecendo no convés a tocar harmônica, enquanto Jimmy-Jean se mantinha firme ao leme. Conversavam muito; e a conversa, naturalmente, girava sempre em torno de Felix.
– Ele é um desiludido – disse Jimmy-Jean. – É esperto e orgulhoso, mas acho que nunca mulher alguma o amou. Vive repetindo aquela história de que “num dia se ganha, em outro se perde”. Felix já percebeu que acabará perdendo sempre, todos os dias. Por isso, quer adiantar-se na corrida e ter a certeza de que fracassou mesmo. Ofende a todos, para se certificar logo de que não existe amor nem amizade em sua vida.
– E você, Jimmy-Jean? – Perguntou Tony, entre os sons da harmônica. – Que pretende fazer com o dinheiro que vai ganhar nesta viagem?
– O mesmo de sempre. Bebida, mulheres e roupas novas. Gosto de gastar o meu dinheiro o mais depressa possível. Uma coisa me deixa um medo horrível no coração: é a possibilidade de uma velhice cercada de conforto.
Na terceira noite, atingiram o ponto em que deveriam aguardar. Duas luzes brilhavam no litoral. O barco então começou a avançar lentamente para o encontro final.
O “Ruby” já estava a meio caminho da última etapa, quando Tony, junto ao leme, sentiu que alguma coisa estava errada.
Imediatamente fez voltar a embarcação, descrevendo um largo círculo, e rumou novamente em direção ao alto-mar. Lá atrás, um barco da Guarda Costeira abriu fogo contra o “Ruby”.
– Eles estavam à nossa espera – exclamou Tony. – Alguém os avisou.
E já que o homem do bar, Miguel, tinha interesse em receber a encomenda, restava apenas uma pessoa suspeita no caso: o homem que deixara de fazer aquela viagem, o homem que odiava Irena.
Um poderoso holofote focalizou-os. Jimmy-Jean suava frio.
– Que faremos agora, Tony?
Enquanto as balas zuniam junto ao “Ruby”, Tony fixou a roda do leme num ponto e sorriu para o negro.
– Vai ser um longo mergulho, Jimmy-Jean. Que estamos esperando?
E ambos se lançaram ao mar.
Os homens da Guarda Costeira não chegaram a vê-los mergulhar. Depois de uma fatigante prova de resistência, Tony e Jimmy-Jean chegaram exaustos à praia distante.
– Acho melhor nos separarmos aqui – disse Tony, quando conseguiu recobrar o fôlego. – Se você encontrar Felix, diga-lhe que estou no seu encalço.

Quando Jimmy-Jean terminou seu relato para o dr. Sam, o cinzeiro do bar em que se encontravam estava cheio de pontas de cigarros e havia vários copos em cima da mesa.
O médico recostou-se na cadeira. Ali estava a razão pela qual Tony Finn voltara para Santa Nada com um revólver carregado.
– E Felix? Ele está aqui?
O negro fez que sim com a cabeça.
– E a mulher?
– Está em companhia dele. E Tony sabe disso. Escreveu-me de Caracas, e respondi-lhe contando tudo. Julguei que talvez ele esquecesse da aventura e voltasse para Indiana, doutor.
– Só que ele não voltou para casa. Ao invés disso, comprou um revólver – comentou o médico, olhando na direção do navio fumegante...

As bocas das mangueiras continuavam lançando jatos d’água em direção à estrutura de ferro tomada pelas chamas, enquanto o pessoal da Marinha tentava desesperadamente retirar a pesada viga de cima das pernas do marinheiro. A essa altura, porém, todos já sabiam que era inútil continuar tentando. O “Ulysses” estava mesmo condenado.
Mas ainda restava uma esperança. O dr. Sam fez com que o negro o conduzisse até o outro lado da ilha, onde Felix Bowers conseguira emprego como mecânico, numa refinaria de açúcar. Descobriram-no enfiado em roupas de trabalho e deixaram-se levar por ele até a pequena casa das proximidades. Era nessa casa que Felix e Irena moravam juntos...
Enquanto isso, lá atrás, nas docas, onde a fumaça – produzida pelo alastramento do fogo no porão do cargueiro – começava a levantar-se em grossos rolos, cada vez mais densos, o Tenente Sellers desdobrava-se no sentido de libertar Tony. Entretanto, chegou o momento em que não tinha mais tempo para protelar uma decisão. Uma decisão que partira do chefe do porto e que ele teria de executar.
– Eu quero salvar esse rapaz, tanto quanto você, tenente – falara o chefe. – Mas o navio poderá explodir a qualquer momento. Mande os seus homens se retirarem. Darei ordens para que o cargueiro seja novamente rebocado para o largo, onde a explosão não atingirá a cidade.
Tony ainda ria, quando Sellers lhe comunicou a decisão do chefe do porto.
– Pela última vez, – disse o tenente, – já mudou de opinião... sobre aquilo?
– Não – retrucou Tony. – E é só isso, tenente – concluiu, acenando adeus para a Marinha Americana.

Tudo ficou terrivelmente solitário, quando o último homem da turma de salvamento deixou o navio. Depois, Tony sentiu que a embarcação estava sendo rebocada de volta à baía. Era aquilo mesmo que tinha de ser feito, pensou consigo mesmo. O barco iria explodir num ponto distante, onde apenas um homem seria morto na explosão. E o tempo, que começava a escoar-se com uma lentidão enervante, deixava uma sensação esquisita no condenado.
Quando ouviu novamente um ruído, Tony não pôde acreditar nos próprios ouvidos. Mas, de qualquer modo, elevou o olhos para verificar o que era. Do meio das sombras, surgiu, diante dele, a figura do dr. Sam e, atrás do médico, outro homem, a quem conhecia tão bem quanto a si mesmo.
Quando Felix falou, sua voz parecia de aço.
– O doutor disse que, se você tivesse permitido, já poderia tê-lo tirado daí.
– Ele falou isso a você? – Perguntou Tony mansamente.
– Sim. E eu lhe respondi que você não ficaria abandonado. Falei que tomaríamos conta de você. Irena e eu... para sempre. Ela está esperando lá fora, na lancha que nos trouxe até aqui.
– Não a deixe entrar – disse Tony, quase gritando. – Ninguém irá cuidar de mim.
O dr. Sam respirou profundamente e falou:
– Então, já fiz tudo que podia fazer por você, filho. Agora quero pedir-lhe que faça algo por mim. Acredito na palavra de Deus. Sei porque veio a esta ilha. Sei para que se destinava aquele revólver em seu armário. Mas... quero que você o perdoe, Tony.
Seguiu-se um silêncio naquele canto do navio arruinado, enquanto os olhos de Tony brilhavam.
O dr. Sam continuou:
– Ele é ruim, eu sei. Causou-lhe grandes sofrimentos, sei disso também. É um traidor e mentiroso. Mas quero que o perdoe.
Finalmente, Tony falou:
– Se eu tivesse uma arma na mão, atiraria nele agora mesmo. E digo mais: se tivesse um filho, seria capaz de amaldiçoá-lo se ele não me prometesse seguir a trilha desse sujeito e liquidá-lo um dia.
O som de sua respiração ofegante enchia a atmosfera abafada.
– Doutor, – disse Felix com calma, – o senhor já teve a sua oportunidade. Agora deixe que eu tenha a minha. Queira retirar-se. Deixe-me a sós com Tony. Temos de conversar em particular.
A proa deu a impressão de ficar quatro vezes mais solitária, quando o dr. Sam se retirou. O rolo de fumaça que se desprendia do porão estava mais quente e mais acre. Felix enxugou o suor da mão.
– Eu sou todas aquelas coisas que o doutor acaba de dizer – começou ele. – Mas não vou deixá-lo sozinho agora. Dei-me bem com você durante muito tempo, Tony. Até encontrá-lo, vivia rodando por estas ilhas, sem ninguém no mundo em quem confiar. Ninguém se importava que eu vivesse ou morresse. Por quê? Apenas porque eu odiava todo mundo. Então, por algum tempo, depois que o conheci, julguei esquecer tudo que me fazia parecer um sujeito desprezível. Há muitas coisas que nunca lhe contei. Por exemplo, o fato de eu ter passado por um reformatório quando tinha doze anos de idade; as surras que dei e levei; a deserção do Exército; e o que minha esposa fez antes de me abandonar. Então conheci Irena.
A fumaça tornou-se mais espessa.
– Nunca desejei tão fortemente uma coisa em minha vida, Tony. Talvez porque eu e ela fossemos tão parecidos – continuou Felix. – Ela viveu o seu drama em Berlim, e eu também vivi em Berlim. Fomos feridos no mesmo ataque. Então, apareceu você me dizendo que iria casar com ela. Naquela noite avisei os guardas da polícia da Marinha. Estou envergonhado disso... mas faria outra vez, se fosse preciso.
Tony deu um fraco sorriso.
– E o doutor ainda falou em perdoá-lo.
– Acho que fiz mal, agindo assim. E sabe por quê? Não era preciso nada daquilo. Dois dias depois de você ter partido, quando já era tarde demais para mandar avisá-lo, ela foi procurar-me no hotel, onde eu estava meio embriagado. Caiu de joelhos e disse-me que não poderia casar com você. Disse que cometera um engano, porque você era jovem, carinhoso e havia prometido a ela segurança na vida. Ela queria apenas... a mim. Tínhamos salvo um ao outro. Éramos dois zeros... que, de certo modo, reunidos, somavam um valor.
Tony e Felix se olharam demoradamente. Então, o porão explodiu. O navio inclinou-se sob o efeito do impacto, e um impressionante estalar de aço abafou a explosão de ódio que partiu da garganta de Tony. Em seguida, os dois homens foram envolvidos por uma terrível confusão de metais retorcidos, que se misturavam com as labaredas vindas do porão. Felix gritou:
– Tony!
– A viga se moveu. Já posso movimentar as pernas – berrou o outro.
No meio dos escombros da explosão, Felix conseguiu arrastar o companheiro na direção da abertura que os trabalhadores da Marinha haviam feito num dos lados do cargueiro. Ambos estavam bastante contundidos, cheios de cortes e sangrando, embora não tivessem nenhum ferimento profundo. As feridas dos seus corações não podiam sangrar.
Felix colocou Tony junto à abertura do casco e disse para ele saltar.
– É bom que você saiba de tudo neste momento – vociferou Tony. – Isso não muda em nada a situação. Se eu conseguir escapar, voltarei para apanhá-lo e vingar-me de você.
Lá embaixo estava a lancha, flutuando sobre um mar agitado pelas chamas.
– SALTE AGORA! – Ordenou Felix.

O pequeno cabaré onde, dias depois, se encontravam Felix, Irena e o dr. Sam era um lugar supostamente alegre. Mas nenhum dos três sequer sorria. As cenas que, juntos, haviam presenciado, a pavorosa explosão que por pouco quase devorara a vida de dois homens... tudo isso ainda estava muito recente em suas mentes.
– Ele é um homem forte e logo recuperará a saúde – disse o médico, referindo-se a Tony.
Jimmy-Jean caminhou rapidamente para o grupo, abrindo caminho por entre as mesas, enquanto a orquestra atacava um ritmo sincopado. Depois, o negro curvou-se e sussurrou ao ouvido de Felix:
– Acabo de vê-lo. Está vindo para cá. E traz um revólver.
Felix e Irena entreolharam-se significativamente; e o rapaz, afinal, deu de ombros, num gesto de resignação.
– Bem, sente-se, Jimmy-Jean. Tome um drinque.
– Não, obrigado – agradeceu o negro, afastando-se. – Tomarei meu trago no bar. Eu aviso esse homem, dr. Sam... mas não beberei com ele.
Nesse momento, surgiu Tony, por trás das cortinas de contas. Sua fisionomia mostrava-se dura, e ele caminhava como alguém que tivesse acabado de aprender a andar. Quando passou por entre os dançarinos, dirigindo-se para a mesa dos seus conhecidos, estes ergueram os olhos para ele, em silêncio.
– Estávamos à sua espera – disse Felix, apontando para o copo vazio.
Tony nem se preocupou em olhar o antigo sócio. Seus olhos estavam cravados em Irena.
– Quero falar com você. Lá fora. A sós.
Ela levantou-se como se fosse uma boneca de mola. Porém, antes de dar um passo, abaixou-se e beijou Felix na boca.
A mão de Tony desceu para o bolso onde estava a arma, mas logo Irena se voltou para ele e disse:
– Estou pronta.
Tony respirou profundamente, enquanto a mão se afastava do bolso... vazia. Ainda fitando Irena, o rapaz esforçou-se para disfarçar o choque que lhe causara aquele beijo e o significado do mesmo. Não acreditara na palavra de Felix, quando ambos estavam no navio. Agora, porém, aquele gesto de Irena vinha provar-lhe a sinceridade do sentimento que ela nutria pelo seu rival.
Estendeu a mão e deitou um pouco de rum no copo que lhe estava destinado. Susteve-o no ar, por alguns instantes, como se fosse fazer um amargo brinde. Depois, recolocou o copo sobre a mesa, sem provar a bebida.
– Sente-se, Irena – disse mansamente. – Nada temos para conversar. É como alguém diz: “Num dia se ganha, em outro se perde.”Hoje eu pago as bebidas – anunciou, atirando uma cédula verde sobre a mesa. E afastou-se, capengando.

Título original: Fire Down Below
Ano de produção: 1957
Tempo de projeção: 110'
Produção: Irving Allen & Albert R. Broccoli
Direção: Robert Parrish
Roteiro: Irwin Shaw, baseando-se em romance de Max Catto
Elenco:
Rita Hayworth (Irena)
Robert Mitchum (Felix Bowers)
Jack Lemmon (Tony Finn)
Herbert Lom (Chefe do Porto)
Bonar Colleano (Tenente Nat Sellers)
Bernard Lee (Dr. Sam)
Edric Connor (Jimmy-Jean)
Peter Illing (Capitão do “Ulysses”)
Joan Miller (Sra. Canaday)
Anthony Newley (Miguel)
Eric Pohlmann (Dono do Hotel)
Lionel Murton (O Americano)
Distribuição: Columbia Pictures


NOTA:

Cinemateca foi um projeto que criei em 2001 e que apresentei à Opera Graphica, editora para a qual eu trabalhava na época. Seria uma série de livros, e cada volume teria versões romanceadas de filmes (do passado) que alcançaram alguma notoriedade. Infelizmente, o projeto foi rejeitado. Lábios de Fogo foi um dos filmes que eu adaptei para o primeiro volume da série.

 

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