terça-feira, 19 de março de 2013

VAGA IDEIA


Seu nome é José Dias
 
Ano passado recebi um convite para ser jurado do VII Festival de Cinema de Cascavel. Veteranos, ou não (como eu), a verdade é que nunca sabemos o que iremos encontrar ao aceitar uma solicitação com essa. Particularmente nesse caso eu tinha poucas informações.
 
Para chegar a Cascavel eu desembarquei em Foz do Iguaçu, calor terrível. Um funcionário da Secretaria de Cultura da cidade me aguardava segurando uma placa com o nome do festival para poder me localizar. Ao entrar no carro o rapaz informa que precisaríamos passar em um hotel para buscar outra pessoa, que também iria compor o quadro da equipe.
 
O carro parou em frente ao hotel, antes de descer, o rapaz diz: “é aquele senhor lendo o jornal, vou chamá-lo”. Quando escrevo que nunca sabemos o que podemos encontrar, é fato. A maioria dos jurados, críticos e afins que trabalham para julgar a qualidade artística e técnica de um filme é enjoada, esnobe, consideram-se mais importantes que os próprios filmes em questão. Aquele senhor lendo jornal no saguão do hotel era José Dias, renomado cenógrafo. Carioca, ele sai do hotel com malemolência, me cumprimenta sorridente, simpático. Ofereço o banco da frente do carro para se sentar, apesar de mais alto que ele. Em tom jocoso, prontamente aceita, dizendo ser um senhor de idade.
 
Seguimos para Cascavel, paramos na estrada para almoçar. Seriam quase duas horas de viagem, mas pareceram quinze minutos. No trajeto ele se apresentou e contou sobre a sua trajetória.
 
Sua primeira cenografia de maior porte é a da montagem paulista de Campeões do Mundo, de Dias Gomes, direção de Antônio Mercado, 1980. É em espetáculos artisticamente ambiciosos que sua capacidade de interpretar visualmente um texto e o espírito de uma encenação se destaca - como em Besame Mucho, de Mario Prata, direção de Aderbal Freire Filho, entre outros espetáculos. No teatro foram diversos prêmios.
 
Além do teatro e televisão é também diretor de arte e cenógrafo de cinema, filmes institucionais e comerciais.
 
José Dias trabalha também em televisão. Como contratado da TV Globo, criou cenários para programas variados e chegou a ocupar o cargo de cenógrafo-chefe do setor de montagens da emissora.  Antes, tinha trabalhado na extinta TV Tupi (1972-1973), mas foi na Globo que deixou trabalhos importantes, onde esteve de 1974 a 1989, sendo responsável pela cenografia dos casos especiais ("O silêncio é de ouro", "Feliz aniversário", "Ciranda cirandinha", "Jorge um brasileiro", "A morte e a morte de Quincas berro d’água", entre outros) e do seriado "O Bem Amado" – sobre o qual publicou um livro.
 
Participou também da equipe de cenógrafos da novela "Gabriela".
 
Numa segunda-feira à noite, para um público de seis pessoas, José Dias fez uma palestra sobre cenografia. Em determinado momento ele rememorou seu trabalho em “Gabriela”, a primeira versão. Era pertinente já que naquele momento era exibido o remake da própria.
 
Ele se dizia indignado com a cenografia do bordel, o Bataclan: “aquilo não existe nem em Paris, é muito luxo, imagine no interior da Bahia no começo do século? Não me importa a beleza, na cenografia o importante é a verdade!”.
 
Aquelas palavras marcaram. Não só na cenografia tem que ter a verdade, o profissional precisa ser também e José Dias o é.
 
Rafael Spaca, radialista, autor do blog Os Curtos Filmes (http://oscurtosfilmes.blogspot.com/).

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