segunda-feira, 28 de abril de 2014

Rodrigo Feldman

 
Ator e cineasta. Construiu uma sólida trajetória no Teatro. No cinema atuou no curta-metragem ‘Café Turco (2011)’, entre outros trabalhos.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Trabalho como ator há mais de quinze anos. Tive a chance de ver um pouco deste cruel e apaixonante mercado no Brasil e Europa, pois morei quatro anos na França estudando e trabalhando em cinema e teatro. Para espanto de muitos, a carreira de ator lá fora não mais fácil como muitos imaginam. Existe sim uma grande diferença na forma como o artista é visto e seu papel na sociedade. No Brasil, é ainda muito marginalizada, engatinhando em termos de profissionalização do artista. Aqui, a diferença do ator profissional do amador é possuir seu registro junto ao sindicato, não na forma que ganha a vida. As escolas ensinam apenas a interpretar, mas não preparam o profissional para o mercado, construir uma carreira a longo prazo. Diferente das outras carreiras, o ator não tem estágios, trainees, crescem, viram gerentes juniores, dentre outros. 
 
A maioria vê a profissão de forma muito ilusória e ingênua, o que não condiz com a realidade. Por isso, tantos começam, porém poucos se mantém. Uma carreira longa e duradoura se faz com muito trabalho, dedicação e amor, mas principalmente, de paciência. Muitos confundem ter sucesso com ser uma celebridade. A fama pode ajudar muito o artista preparado e consciente, mas também pode ser péssimo ao deslumbrado e imaturo. Pode até sufocar e destruir uma carreira promissora de um talentoso profissional mal preparado. 
 
Os curtas-metragens, na maioria das vezes, não podem e muitas vezes nem querem contratar atores renomados. Pela possibilidade de exploração de linguagens que os curtas oferecem, orçamentos reduzido ou inexistentes, abrem espaço para novos talentos e cobrem essa lacuna. Permitem que novos profissionais sejam vistos,  aprendam. Por isso, participar de curtas metragens é praticamente obrigatório para os que desejam explorar e trabalhar nesta área, como forma de aprendizado e até mesmo a oportunidade de testar seus talentos. Mostrar seu potencial. Perceber e viver a realidade e se preparar para o mercado.  
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Na verdade isso esta mudando. A qualidade das produções de curtas tem aumentado muito, assim como a quantidade, proporcionado pelas novas tecnologias e formas de divulgação e exibição que tornam essa arte mais acessível. Além disso, os curtas até então era vistos apenas como filmes menores, mais curtos, não como um produto totalmente diferente. Não tinham muito apelo comercial, exceto os da publicidade. E estes, pelo caráter puramente comercial, não mereciam se enquadrar como legítimas representações da mistificada "Sétima Arte". O que é um paradoxo, uma vez que os longas recebem possuem esse grande espaço de  mídia e crítica, justamente por seu possibilidade de exploração comercial. Os curtas nunca foram produzidos para garantirem bilheteria. Eram formas de explorar novas linguagens de filmagens, apresentar novos diretores, uma espécie de estágio para cineastas. Isso teve sua importância e ainda vai ter sua importância no futuro, porém não como única forma de exploração. Atualmente, a veiculação e distribuição estão se inovando e expandindo, novos mercados vão se abrir. Principalmente para histórias curtas. A forma que vemos o cinema esta mudando, e os curtas metragens terão papel fundamental nesta transformação. 
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Para atingir mais público, precisamos mudar sua forma de distribuição e comercialização. Não ver os curtas como filhos pequenos de longas metragens. Os Festivais de cinema estimulam muito sua produção, o que é ótimo. Fazem com que pessoas percebam o potencial de explorar essa linguagem, mas só é eficaz se conseguir se sustentar. Este apoio faz com que tenhamos mais intimidade e acesso a esse filho marginalizado. Mas penso que, assim como as Leis de Incentivos Fiscais, são apenas comburentes para o fogo, não o combustível. Para que o fogo sobreviva, precisamos do combustível que alimente a energia necessária para continuar queimando. Devemos inovar não somente na forma de produzir, mas em todas as áreas agregadas a sua difusão e comercialização. Assim como grandes obras como "Dom Quixote" são publicadas e possuem um público que a sustenta e faz existir, contos e crônicas tem seu mercado garantido em jornais, blogs, panfletos. E ambos fazem parte da grande "Literatura". Quando ousarmos mais, explorar a vasta possibilidade comercial dos curtas metragens, encontrando seu mercado, vendo-os não somente como filmes menores, descobrir novas formas de exibição e distribuição, explorando todas formas possíveis e seu poder de comunicação, teremos identificado um público que dará o combustível que falta para este  fogo, aceso há muito tempo. Vamos poder descartar os fósforos e desfrutar deste poderoso fogo que se manterá por muito tempo já que não vai mais poder se apagar.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Pois é, como disse anteriormente, esta era a única forma de explorar os curtas. Mas com certeza ser cineasta de curta-metragem será muito diferente da forma que vemos hoje. Assim como temos cronistas excelentes hoje em dia que talvez não pretendem escrever Epopeias, satisfeitos e realizados com o que fazem, o curta-metragista vai encontrar sua forma sincera de se expressar. 
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Sim e não. Na verdade creio que é mais marginalizado pela forma em que os próprios realizadores se posicionarem muitas vezes como aprendizes, treinando para realizem longas-metragens. Como os curtas ainda são produzidos sem explorar seu pleno potencial de comunicação e distribuição, tornam-se apenas escolas. Mas podemos ir muito além disso, se explorarmos seu potencial de penetração junto a um público ávido por rapidez e comunicação direta. Tenho visto diversos curtas metragens com roteiros, direção, interpretação geniais... mas raríssimos os que exploram a forma de comunicação com a parte fundamental deste ciclo, seu público.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim, claro! Já dirigi alguns programas e curtas, gosto muito disso. E com certeza, está nos meus planos. Assim que encontrar um roteiro que me pegue, certamente colocarei toda minha energia para vê-los nas telonas... ou não!

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