sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica



O GÊNIO DOS GÊNIOS
José Mojica Marins

Escrever sobre Rubens Francisco Lucchetti é para mim uma grande satisfação, pois, além de termos trabalhado juntos durante muito anos – eu criando histórias, e ele as roteirizando –, tornamo-nos também grandes amigos.

No Brasil, no que se refere ao Horror, Terror e Policial, não temos e nunca tivemos um outro roteirista de Cinema e Quadrinhos como o Lucchetti, que sempre demonstrou uma ligeireza fantástica para captar minhas ideias e transformá-las em roteiros. É um elemento insubstituível. Extremamente imaginativo e meticuloso, sempre procura a razão da história nascer, o sentido do personagem existir. Ele dá vida aos personagens, atuando como um deus criador.

Conheci-o em 1967, apresentado por um amigo meu na época, o intelectual Sérgio Lima. Coincidentemente, Sérgio havia enviado ao Lucchetti uma carta em que falava a meu respeito. A coincidência é que, naquela ocasião, Lucchetti, que morava em Ribeirão Preto, estava sob forte influência do meu filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Portanto, tão logo Lucchetti se mudou para São Paulo, Sérgio arranjou um encontro para que nos conhecêssemos.

Muito sofisticado, Sérgio nos levou a uma casa de chá instalada no mesmo prédio do Cine Olido, na Rua Barão de Itapetininga. Logo pude notar a grande criatividade que o Lucchetti possuía e o que era melhor: ele era grande fã de histórias de Terror. Falou-me, inclusive, de algumas histórias que tinha escrito e ainda disse que era amigo do desenhista Jayme Cortez, de quem eu era grande admirador.

Saí daquele encontro sem saber que impressão eu havia causado ao Lucchetti. Alguns dias depois, ele apareceu na sinagoga, na Rua Casimiro de Abreu, 326, onde eu tinha meu estúdio. Recordo-me de que era um sábado à tarde; e, quando regressei do bar em que havia ido com alguns amigos, a Nilce me disse que uma pessoa estava me procurando. Pouco depois, essa pessoa subia as escadas da sinagoga, eu vi que era o Lucchetti. Pareceu-me que ele não estava muito à vontade. Convidei-o a entrar no meu atravancado escritório, onde a Nilce estava colando artigos a meu respeito no álbum de recortes; e sentamo-nos num velho sofá.

Quando nos despedimos, o Lucchetti já fazia parte da equipe que eu vinha formando e que já contava com alguns elementos fixos: o Mário Lima; o Graveto; o Jean Silva, que mais tarde ficaria conhecido como Jean Garrett; o Salvador do Amaral; o Dario Santos; o Roberto Leme; o Virgílio Roveda; o Giorgio Attili, meu cinegrafista; e a Nilce, minha secretária. O Lucchetti seria meu contratado exclusivo para escrever meus roterios. E, de imediato, encomendei-lhe as histórias do meu próximo filme, O Estranho Mundo de Zé do Caixão. E relatei-lhe algumas dessas histórias. Ouvia-me atentamente, e pedi à Nilce uma folha de papel almaço para que anotasse os argumentos. Então, ele me disse: “Não é necessário!” Fiquei em dúvida de que pudesse gravar na memória o que eu estava lhe contando. Tive uma grande surpresa quando, alguns dias mais tarde, o Lucchetti voltou com várias páginas escritas. Ali estavam: “O Fabricante de Bonecas”, “Tara” e “Ideologia”. Nem eu as teria escrito melhor. Foi impressionante como praticamente com uma rápida explicação ele conseguiu captar meu pensamento e passá-lo para o papel em forma de roteiro.

Lembro-me de que, nessa época, sempre nos reuníamos na Gato Preto, uma leiteira que ficava perto da sinagoga; e o Lucchetti era testemunha dos telefonemas que eu costumava dar de lá para o Sílvio Santos. Quem costumava atender aos telefonemas era Aparecida, a mulher do Sílvio. E eu dizia alto e bom som: “Cidinha, por favor, chame o Sílvia Santos. Diga que é o Mojica.” Eu fazia de propósito, só para ver os olhares espantados que os fregueses dirigiam a mim.

Naquele mesmo ano, assinei contrato com a TV Bandeirantes Canal 13; e, assim, o Lucchetti passou a escrever também os scripts do programa Além, Muito Além do Além.

Ainda fomos parceiros na TV Tupi e em todos os filmes de Terror que fiz entre 1967 e 1978.

Recordo-me de que passei uma noite toda em sua casa, na Rua Jequitinhonha, discutindo uma série de planos que poderíamos desenvolver juntos. Lucchetti deu uma série de sugestões: fotonovelas, programas de rádio, histórias em quadrinhos e até uma boate Zé do Caixão... Meu Deus, como pensávamos de modo tão igual!

Eu tinha mil negócios, corria o dia todo com o Neno, que era meu motorista particular e dirigia minha limusine preta. Enquanto isso, o Lucchetti ficava fechado no seu escritório, fazendo o que mais gostava: escrever.

As propostas para a realização de filmes se avolumavam. Assim, os contratos para filmes sob a minha direção e com roteiros de Lucchetti iam se sucedendo; e a nossa parceria prosseguia cada vez mais firme.

VINTE HISTÓRIAS EM 24 HORAS

Em 1969, fui apresentado pelo Walter Hugo Khouri a um produtor norte-americano que estava de passagem pelo Brasil e tinha muito dinheiro. Impressionado com o meu trabalho, esse produtor pediu-me vinte histórias. Era a grande oportunidade da minha vida, seria a minha independência financeira. Acontece, porém, que eu tinha um prazo de 24 horas para entregar as histórias.

Aceitei o desafio e corri para a casa do Lucchetti. Queria contar-lhe a novidade; e, então escreveríamos as histórias. O Lucchetti não recebeu a notícia com muito entusiasmo, mas aceitou escrever as histórias. Depois, com a intuição de que ele é dotado, disse-me que certamente nunca mais voltaríamos a ter notícia desse produtor e pediu-me que não contasse a novidade para ninguém, principalmente para os “amigos” de Boca do Lixo (*), porque, caso o projeto não se concretizasse, eu cairia no ridículo.

Não dei muita importância ao que o Lucchetti me dissera e, feliz da vida, espalhei a notícia a todos.

O resultado não poderia ter sido outro: em 24 horas, o Lucchetti escreveu as vinte histórias, que misturavam terror, erotismo e humor; e fomos, animadamente, levá-las para o produtor. Ele as recebeu e ficou de entrar em contato conosco.

Alguns dias depois, o produtor voltou para os Estados Unidos, levando as histórias. E, mais uma vez, o Lucchetti estava certo. Tudo aconteceu exatamente como ele previra: o homem sumiu, e os “amigos”da Boca zombaram da minha ingenuidade.

LUCCHETTI, O INJUSTIÇADO

O Lucchetti escreveu praticamente de tudo: roteiros de filmes, histórias em quadrinhos e fotonovelas; seriados de rádio; scripts para a televisão; livros... É difícil enumerar todos os seus trabalhos. Sua máquina não parava. Durante os dois anos em que ele trabalhou para mim, escreveu de tudo. Temos uma grande quantidade de argumentos, roteiros e textos os mais diversos, tudo inédito. Chegamos a preparar até o roteiro de um desenho animado com o título de As Aventuras de Zé do Caixão. E o Lucchetti tem tudo muito bem organizado e encadernado. Ele é de uma organização exemplar. Até mesmo esboços de histórias não desenvolvidas estão devidamente catalogados e encadernados. E repito o que já disse em certa ocasião: “Se eu morrer amanhã ou depois, tem o Rubens Francisco Lucchetti, que considero um dos maiores roteiristas, que está pronto para dar continuidade ao meu trabalho.”

Para interpretar meu pensamento, não poderia haver ninguém melhor do que o Lucchetti. Eu o considero o gênio dos gênios. Ele é praticamente uma extensão do meu pensamento, tal a fidelidade com que passa para o papel aquilo que eu penso.

Com certeza, o Lucchetti é mais um dos grandes escritores brasileiros injustiçados, por não ter recebido o reconhecimento merecido.

O Lucchetti é uma pessoa tímida na vida real, mas brilhante na sua arte de escrever e criar. É uma pessoa íntegra, um exemplo a ser seguido e um grande e sincero amigo. É, enfim, um ser humano iluminado pelo Criador.

NOTA (escrita por Marco Aurélio Lucchetti):

(*) Nas décadas de 1960 e 1970, a Boca do Lixo – localizada no bairro de Santa Ifigênia, no centro velho de São Paulo, e delimitada pelas avenidas Rio Branco e Duque de Caxias, a Boca do Lixo (ela tem esse nome em virtude de ser zona de baixo meretrício e ter um grande número de pensões e hotéis baratos) é uma área de cerca de quinze quarteirões, bem próxima à antiga rodoviária e às estações da Luz e Júlio Prestes (Sorocabana) – era a ponto de encontro do pessoal de Cinema, pois nela estava instalada a maioria das produtoras e distribuidoras de filmes de São Paulo.

Este texto foi escrito em São Paulo, em outubro de 2003.

José Mojica Marins é cineasta. Estreou no cinema profissional em 1957, realizando o longa-metragem A Sina do Aventureiro, cujo roteiro foi escrito por Luís Sérgio Person e Glauco Mirko Laurelli. Entre 1961 e 1962, editou a revista A Voz do Cinema, da qual era o único redator. Em 1963, criou o polêmico personagem Zé do caixão. Dentre os filmes que dirigiu, destacam-se: À Meia-Noite Levarei sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Ritual dos Sádicos (rebatizado com o título de O Despertar da Besta), Exorcismo Negro, Inferno Carnal e Delírios de um Anormal. Trabalhou (como ator) em filmes de vários diretores. Teve três programas de televisão: Além, Muito Além do Além (TV Bandeirantes), O Estranho Mundo de Zé do Caixão (TV Tupi) e Um Show do Outro Mundo (TV Record). Apresentou em 1996, na TV Bandeirantes, o programa Cine Trash, que exibia filmes de Horror/Terror. Na década de 1990, colaborou no jornal O Estado de S. Paulo, escrevendo a coluna semanal “Macabra Fornalha do Inconcebível”. Sua filha, Mariliz, criou a Vampira Lizvamp.

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