terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Zaira Bueno

 
Zaira, conte como surgiu pela primeira vez a ideia de se tornar uma atriz.
Eu trabalhava como modelo da Christine Yufon, fazia muitas fotos de publicidade e comerciais para TV. Um dia o David Cardoso, procurando atrizes para um filme de sua produção, escolheu uma de minhas fotos e me chamou para fazer uma entrevista com o diretor Jean Garret que decidiu me convidar para estrelar seu filme a ‘Ilha do Desejo’, foi meu primeiro filme.
 
Você nasceu em Porto Alegre grande parte da sua trajetória artística está ligada a cidade de São Paulo. O que tem a falar de São Paulo?
Eu amo São Paulo... sempre que ouço a música Sampa me veem lágrimas nos olhos de saudades. Eu cresci nesta louca cidade, lembro que quando cheguei em São Paulo eu  tinha apenas sete anos, senti um cheiro de gasolina forte pela cidade e minha mãe disse: “é a cidade grande minha filha”…. São Paulo tem uma melancolia e uma alegria própria onde eu me identifico a beça. Dizem que Nova York lembra São Paulo, mas eu acho que São Paulo é única, não tem igual somente quem mora na cidade é quem sabe. “I love Sampa”.
 
Poucos sabem que você também é bailarina. Como o balé apareceu na sua vida? Foi uma vontade sua ou dos seus pais?
Foi ideia de minha mãe, que alias foi o melhor presente que ela poderia ter me deixado. Eu comecei a dançar aos oito anos. Minha mãe me matriculou no Conservatório Musical Souza Lima perto de casa, a professora era a Regina Meire Sangiovani. Eu fiz muitos anos de ballet clássico, moderno, e alguns anos de flamenco. Aos catorze anos comecei a dar aulas de ballet para crianças. Meu primeiro cheque foi para mim um grito de liberdade!!! Adorei mais pelo gosto de ter ganho com meu suor. Fiquei dando aulas de ballet e também fui bailarina da Joyce e dancei profissionalmente com carteira assinada e tudo (hahaha). Fiz até shows na Boate Beco, até  pintar o primeiro filme. Quando mudei para Nova York entrei para a Broadway Dance Center School onde fiz aulas de jazz. Aqui em Los Angeles faz três anos que me exercito com aulas de Pilates.  
 
Você estrelou diversos filmes emblemáticos, entre eles estão ‘Os Insaciados’; ‘Tessa, a Gata’; ‘As Gatas, Mulheres de Aluguel’, entre outros. O que o cinema representa na sua vida?
O cinema que fiz, teve para uma faca de dois gumes. Por um lado, me “popularizou” digamos assim, até hoje recebo muitos e muitos e-mails de fãs dos meus filmes. Por outro lado, assim como uma tatuagem na pele, acabou me marcando com um rótulo que gritou mais forte do que o bom teatro e os trabalhos que fiz na TV. Este rótulo me incomodou para caramba em minha trajetória toda, sentindo que sempre dava um passo para frente e o rótulo da pornochanchada me empurrava dois passos para traz. Eu lutei e foi com muito sacrifício que consegui provar meu talento.
 
E o que esses filmes que você estrelou representaram na sua filmografia?
O que aconteceu depois que eu parei de fazer os filmes da chamada “Boca do Cinema” ou como você queira chamar, foi o seguinte: Eu parti para o teatro, pois o cinema tomou um rumo que não tinha nada a ver comigo, e eu na verdade já tinha me violentado o suficiente para continuar fazendo qualquer filme da Boca. A qualidade foi caindo a cada filme. Os produtores enlouqueceram, e partiram para a baixaria. Processei um diretor por ter colocado enxerto de cenas explicitas com uma dublê em um dos meus filmes. Agora a pouco tempo, descobri que muitos filmes que fiz contém enxerto Tentei falar com uma advogada no Brasil, mas é um caso que pode levar anos  e nem sei se vale a pena comprar esta briga pois fizeram isto com outras atrizes também, e são tantos filmes e tem uns diretores  que nem estão mais aqui.
 
As mulheres, desde os primórdios do cinema nacional, sempre apareceram como coadjuvantes e vocês, em São Paulo (na Boca do Lixo), conseguiram reverter essa posição. Isso foi natural ou vocês se colocaram como as verdadeiras protagonistas daquele momento histórico?
Neste cinema a beleza da mulher era o que vendia o filme. Na verdade eu preferia fazer um papel pequeno, mas forte, que me desse a oportunidade de trabalhar um personagem, do que uma protagonista onde ficasse 90% do filme sem roupa. Mas o que vendia era o corpo das atrizes. Então o fato de ficarem procurando um roteiro comercial, fez com que o lado artístico fosse caindo cada vez mais. Na verdade se perderam na ambição, e esqueceram a arte. Quanto mais mulher bonita e quanto mais partes do corpo nu aparecia, mais bilheteria dava. Então isto começou a virar uma bola de neve e os diretores na ganância do dinheiro, começaram a colocar mais mulheres, menos roupas e ganhavam muito e pagavam pouco.
 
 
Era a partir das atrizes que o filme começava a se “desenhar”?
Acho que os roteiros eram escritos meio que da noite para o dia. Na mesa daquele bar daquela rua chamada Triunfo (Restaurante Soberano), surgiram muito “roteiros” . Lembro que às vezes eu sentava ali para tomar um café e o Ody Fraga estava escrevendo e tomando cafezinho. No dia seguinte o filme estava rodando. Acho que não era a partir da atriz, acho que era a partir de uma historia picante. Quanto mais picante melhor. Depois vinha a atriz, e o importante era estar em boa forma.
 
Entre filmes e novelas constam mais de 25 trabalhos. Quais você destacaria e o por que?
Tem um filme que gosto muito chamado ‘PS post Scriptum’ do Roman Lessage. Fala de Sampa, e tem muitos atores maravilhosos. Todos se entregaram de corpo e alma neste filme. O Lessage era muito exigente. Ele fez teste com várias atrizes para o papel da Tiana eu mesma já não aguentava mais. Fiz vários testes. Até que finalmente um dia ele me chamou pelo nome da personagem, e eu comecei a chorar de emoção. Nunca vou esquecer. Tenho também a ‘Valsa nº 6’ o monólogo do Nelson Rodrigues. Tive varias criticas maravilhosas ai no Brasil. Eu fazia doze personagens. Fiz também esta peca aqui em Los Angeles no Teatro Freud da Faculdade da UCLA com produção do Fabio Golombeck.  Interessante foi  que diretores americanos de teatro foram assistir e mesmo a peça ter sido feita em português adoraram e foram me abraçar no camarim dando os parabéns.
 
E quais gostaria de esquecer? E por que?
Teve uma época na minha vida que eu gostaria de esquecer: a maioria dos filmes que fiz para ser honesta. Mas hoje eu estou completamente resolvida com isto. Fiz, tá feito,  foi uma época,  já passou.
 
Havia rivalidade entre as “musas” do cinema paulista?
Eu era tão ocupada e tão voltada para o meu mundo, que se tinha rivalidade eu nunca percebi. Eu estava sempre pensando no que fazer para melhorar minha vida, não tinha tempo mesmo.
 
Como é o seu processo de construção de uma personagem?
Eu gosto de sentir e viver como se fosse o personagem, então ele vai brotando. Eu escrevo uma historinha como se fosse um diário de mim mesmo, mas na verdade não sou eu sou o personagem. Depois ele vai surgindo naturalmente sem esforço, e a emoção vem junto.
 
Muitos produtores e diretores de filme possuem suas atrizes prediletas. Você sempre se destacou, não só pela beleza, como também pelo profissionalismo. Esse era um diferencial?
Para ser honesta com você Rafael, eu me arrependo por não ter sido mais profissional. Tive muita sorte de ter trabalhado com pessoas maravilhosas, ótimos diretores, autores, atores, produtores, mas meu forte não era o profissionalismo (hahahaha). Chegava atrasada, reclamava, tinha uma época na minha vida que eu era muito chata, e quando me lembro disso, não gosto, me deixa triste.  As pessoas mudam a partir do momento em que começam a enxergar a si mesmo. Eu estou sempre mudando e tentando sempre melhorar como pessoa. O Budismo tem um ditado que fala: “Os cílios estão colados nos olhos e a gente não vê” Eu adoro este ditado, pois na verdade, só conseguimos mudar quando enxergamos os próprios defeitos.
 
Você declarou certa vez que era tímida. Como lidar com a timidez quando protagoniza uma comédia erótica?
Foi muito difícil a primeira vez que tive que fazer uma cena onde tirava a roupa. Lembro que a primeira vez, simplesmente não compareci na filmagem fiquei em casa de cama. Não conseguia levantar meu corpo estava pesado, e eu numa dúvida cruel, pois já tinha prometido para o diretor que ia fazer, e depois me arrependi. Então fiquei pensando no gasto que ele teria em ter que me substituir, sendo que eu já tinha feito muitas outras cenas (de roupa) Decidi não dar este prejuízo a ele então pedi que minha irmã me acompanhasse. Tomei uns dois copos de conhaque e fiz a cena. Este mesmo diretor anos depois foi o que me traiu colocando cenas de sexo num dos meus filmes.
 
 
Como você lidava com a exposição do seu corpo?
Eu sempre me sentia mal em ver estampado em cartazes gigantes nas faixadas dos cinemas meu corpo nu… ali, e todo o mundo que passava na Avenida São João ou Ipiranga, ficava olhando. Eu quando passava olhava para o outro lado.
 
A exposição do corpo feminino no cinema está mais ligado à ganância de dinheiro dos produtores de cinema na época ou ao público, ávido em assistir corpos perfeitos na tela?
Ligado aos dois. Tinha um público enorme para ver o corpo nu das donzelas e o bolso dos produtores se enchendo de grana.
 
O erotismo é uma arte?
Com certeza o erotismo pode ser feito com arte, assim como pode ser feito de uma forma gratuita e banal.
 
Você sempre foi uma mulher bonita?
Yes!!!!!!! (Hahahahhahahha)
 
Como define a sua beleza?
Natural! Sou uma naturalista. Não uso maquiagem, quase nunca. Nunca fiz plástica, nunca me injetei com botox (Estou pensando no assunto (hahahaha)) Faço exercícios, ando de bicicleta, sou vegan, não como absolutamente nada que seja derivado de nenhum animal. Estou sempre trabalhando minha beleza interna, minha beleza da alma, que acho a mais importante.
 
Qual era o perfil médio dos seus fãs?
Homens e rapazes (hahahahaha).
 
Um dos casos que mais irritavam os atores naquela época era que, ao assinar um contrato, o nome do filme era um e quando lançado era outro. Aconteceu um caso com você em ‘O Bebê de Proveta’, que quando lançado se chamava ‘A Noite dos Bacanais’. Como era isso?
Era o que acontecia. É muito engraçado e que às vezes alguém me manda um e-mail dizendo acabei de ver um filme seu no Canal Brasil, ou pegou na internet, e quando falam o nome eu não me lembro de ter feito. Claro, o nome foi mudado para chamar mais bilheteria. Na verdade ia para a censura com um nome, e passavam uma sessão para a equipe e na hora de distribuir, trocavam de nome para ser mais comercial. Sem o menor respeito com os atores, sem nunca nem ao menos avisar: “olha trocamos o nome do filme viu”?
 
Chegou a processar ou teve receio de ser “limada” na Boca do Lixo?
Sim processei um diretor e ganhei a causa.
 
 
Outra questão é que em filmes de comédias eróticas (as pornochanchadas) foram, tempos depois, enxertadas cenas de sexo explicito. Como analisa essa questão? Muitos acreditam que você fez filme de sexo explicito.
Eu nunca fiz cenas de sexo explicito e processei o diretor que enxertou, e ganhei a causa. Mas o filme continuou sendo vendido no mercado negro. Descobri também há pouco tempo que fizeram isto com muitos filmes de muitas atrizes enxertos de cenas de sexo e acho que ate trocaram de nome os filmes.
 
Por que não aceitou trabalhar em filmes de sexo explicito? Os cachês eram realmente maiores?
Acho que o cinema é uma arte e o que faz dele sensacional é que nenhum ator morre de verdade, nenhum ator que representa um drogado toma droga de verdade. Imagina, acabei de ver o filme do Leonardo Di Caprio, o ‘The Wolf of Wall Street’ onde durante o tempo todo ele cheira cocaína, e toma êxtase imagina se fosse explicito tudo o que ele faz neste filme? Ele estaria morto. O lindo da arte é a representação, nada e de verdade, mas tudo parece ser… O erotismo está na situação, nas entrelinhas, num olhar, num suspiro, numa palavra, numa música... Não precisa transar de verdade para mostrar que é uma cena de sexo.
 
Na televisão, quais personagens destaca?
Acho que foram as duas personagens que fiz na TV Bandeirantes, fazia uma freira casta e fazia a irmã gêmea dela, uma prostituta que fugiu de um bordel e foi se esconder no convento fazendo a vida da irmã um caos. Foi muito bom fazer personagem duplo, como atriz foi um ótimo ensaio.
 
E no teatro?
‘A Valsa nº 6’ do Nelson Rodrigues me deu prestigio, mas eu adoro comédia. Adorei fazer uma peça que o Atílio Rico dirigiu, ‘Quem Programa Ação arruma Confusão’, Também adorei fazer ‘O infalível Dr. Brochard’ uma comédia do Paulo Goulart que fiz com meus queridos Flávio Galvão, Jacques Lagoa, Jiuseppe Oristanio e Walter Breda.
 
Mesmo trabalhando em TV, teatro e cinema, podemos dizer que a sua essência é mesmo o cinema?
Acho que sim, eu comecei no cinema.
 
Como você se define como atriz?
INTENSA. Gosto de dar tudo de mim para o personagem, gosto de trabalhar cada respiração, cada movimento, trabalhar no fundo da alma o personagem, até ele gritar
 
Gostaria de voltar a atuar em televisão ou cinema?
Com certeza se for algo que me emocione….
 
O que um produtor ou diretor precisa fazer para que você aceite um papel?
Primeiro me convidar e depois dizer o que se trata.  Se eu gostar negociamos. 
 
Quais diretores gostaria de trabalhar?
Os melhores (hahahahaha).
 
Quais são os melhores?
Existe muita gente boa hoje em dia tanto diretores de teatro como de cinema. Tem uma turma que esta fazendo cinema no Brasil que eu curto a beça. Não vou citar nomes pois de repente esqueço de algum e depois me arrependo.
 
Quais atores você acompanha e admira o trabalho?
São muitos atores que gosto, o Brasil está cheio de gente boa tenho amigos atores maravilhosos, nem da para citar nomes. Dos internacionais gosto muito do Christopher Walken ele é versátil, faz drama e comédia muito bem e nunca é o mesmo, não tem uma forma de fazer, sempre cria o personagem.
 
Viver na América e não pensar em Hollywood é possível?
Hollywood é  um mito, Hollywood ficou marcada com os filmes que hoje são clássicos, e com o glamour das estrelas tipo Greta Gargo, Merlyn Monroe, e tantas outras. Pensar em ser uma estrela hollywoodiana acho que muitos atores devem ter pensado e devem pensar  claro que já pensei também,  a fama internacional, os milhões que ganham num filme, etc. Mas para ser honesta  eu nunca procurei e nunca fui atrás,  pois quando vim meu inglês não dava para segurar uma cena, e agora que falo bem, minha cabeça mudou, tenho outro planos em mente e sou muito ocupada fazendo coisas que me dão muito prazer.
 
O seu mítico ensaio na Revista Playboy, junto com Aldine Muller, foi o que causou o maior impacto entre todos os trabalhos que já realizou?
Acho que impacto maior que o cinema causou e vem causando até hoje na minha vida  e impossível, mas a Playboy pra época, confesso que foi ousadia, e causou sim um impacto muito grande, tanto que ganhamos como  uma das capas mais vendidas e também estamos no livro da Playboy, eternizadas. (hahahahaha)
 
Depois desse ensaio você recebeu mais cantadas de mulheres?
Cantada de mulheres sempre recebi mesmo antes, engraçado, mas acho que a Playboy afetou mais os homens, recebi muitos telefonemas e cantadas mais de homens e até de alguns “poderosos” de Brasília (hahahaha). Tive que tirar meu nome da lista telefônica e trocar meu número.
 
 
 
Por que decidiu morar fora do Brasil?
Esta eu vou deixar para contar no meu livro.
 
Qual foi o maior erro da sua vida?
Aqueles que tive medo de cometer.
 
Pode citar um?
Acho que me arrependo de não ter escolhido melhor os roteiros e a qualidade de alguns filmes, hoje faria diferente, não pelo fato de achar que errei, mas pelo fato da Zaira ter mudado.
 
Qual foi o maior acerto?
Ser mãe!
 
Recentemente, quando da sua última visita ao país, você gerou grandes comentários (todos elogiosos) ao postar fotos de biquíni. Como faz para manter o corpo em tão perfeita forma?
Eu sofro (hahahahahha), deixo de comer um monte de coisas que gosto só para manter a forma, coisas de ego (hahaha). Mas obrigada pelo elogio.
 
Aceitaria posar nua novamente?
Depende da grana (hahahahhahahahahah).
 
É possível surgir outra Zaira Bueno no nosso audiovisual?
(hahahahahahhahahahaha) never!!!!!!!!!
 
Quem foi o seu maior parceiro de trabalho?
Foram vários, cada momento foi um momento e eu curti todos, me diverti com muitos, e amei alguns (hahahahha).
 
Quais seus projetos para o futuro?
Meu livro onde conto minha vida na América! São dezoito anos de América, pode?????
 
Qual é a previsão de lançamento?
Final do ano.

Nenhum comentário: