segunda-feira, 2 de junho de 2014

Christian Petermann

 
Jornalista e crítico de cinema. Já colaborou com veículos como a revista SET, o Guia da Folha de S. Paulo e o programa da TV Gazeta Todo Seu. Atualmente, é colaborador regular das revistas mensais Rolling Stone e Revista da Cultura, curador do festival semestral Cine MuBE Vitrine Independente, consultor para a ONG CineMaterna e sócio-fundador da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema). Integrante de júris em festivais pelo país - 2º SP Terror, 2º Curta Neblina e 18º Mix Brasil (2010); 1º Festival Lume de Cinema Internacional, em São Luis/MA, 6º Cine Fantasy e 3º Curta Neblina (2011); júri da crítica (Abraccine) no 2º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (2013).
 
Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem na filmografia nacional?
A importância do curta-metragem, histórica ou não, não é exclusiva à filmografia nacional. O formato curta, por sua própria natureza de estrutura e de exibição fora do circuito comercial, é plataforma ideal tanto para cineastas iniciantes amadurecerem processos de trabalho como também para testarem estéticas e linguagens. O curta é perfeito para ousar, buscar novas ideias e/ou soluções, e com isso representa uma produção em constante inquietação, e com capacidade de registro quase imediato dos fatos e realidades do momento. E é fato que a grande maioria dos cineastas estabelecidos começou suas filmografias pelo curta, de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos a Laís Bodanzky e Beto Brant.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Justamente porque o formato não tem caráter comercial e não é exibido como um longa. O acesso que se tem aos curtas, tirando eventuais sessões exclusivas em salas do circuito, se reduz a três frentes de exibição: principalmente os festivais de cinema, depois a acessibilidade via internet e por fim programas na TV, geralmente paga (como Canal Brasil e TV Brasil). Com isto, ainda mais diante do espaço cada vez mais limitado dedicado à Cultura em geral, em especial na imprensa escrita, nem se cogita abrir espaço a fórceps para obras de visibilidade limitada. Já não há espaço hábil para comentar todos os longas-metragens em exibição, menos ainda as mostras retrospectivas e especiais, o que dizer dos curtas?
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Esta é uma discussão que já se estende por décadas e nunca chegou a um formato ideal. Lembro que nos anos 1970/80 havia a obrigatoriedade de exibir um curta nacional antes de cada longa -- mas isto acabou sendo uma faca de dois gumes, pois na época havia pouca produção em quantidade e qualidade, o que alimentou um crescente preconceito do espectador em relação ao curta. Hoje, o formato vive momento de prestígio crítico e prêmios tanto nacionais quanto internacionais, mas a curiosidade espontânea do espectador ainda é limitada. Na atual conjuntura de mercado e mídia, acho que o curta desfruta do maior alcance possível. A acessibilidade on-line, em sites como o Porta Curtas, já abriu bastante o leque para o público. Mas ao contrário dos longas, que contam com o registro do ingresso pago, é difícil contabilizar os espectadores de um curta.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Bem, possível claro que é, mas é muito, muito raro conhecer um cineasta que não queira migrar para o longa por tanto ser um desafio maior de carreira como também por ser um melhor acesso (não garantido...) ao espectador. De fato, o curta é visto como trampolim para uma carreira mais ampla. Mas não só: cineastas veteranos em longa por vezes flertam com o curta pela liberdade de expressão e tema incomuns no longa. Um raríssimo caso de cineasta exclusivamente fiel ao curta, que agora me vem à mente, é o do mineiro Dellani Lima, de linha estética experimental e produção intensa.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Nos meus 25 anos de convivência com diferentes tipos de cineastas, já cruzei o caminho de alguns profissionais que consideram o curta uma expressão menor. Mas isto é ignorância e preconceito. A marginalização do formato se deve mais por sua natureza não-comercial, não-lucrativa, levando à pouca (ou nula) cobertura jornalística e decorrente desinteresse por parte do espectador.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Ao contrário do que há muitos anos eu ouço -- de que um crítico de cinema é um cineasta frustrado --, nunca quis fazer um filme, seja curta ou longa. Desde pré-adolescente meu lance é ver e comentar. Mas nunca se sabe o dia de amanhã, não é mesmo?

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