terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os Trapalhões: Daniel Caetano


Daniel Caetano
Crítico


Por que críticos e a Academia, rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Não tenho tanta certeza disso. Há teses e dissertações sobre os Trapalhões, inclusive um filme documentário produzido por um professor da PUC ("O mundo mágico dos Trapalhões"). E acho que a maior parte das pessoas que hoje trabalham na crítica e na academia tem uma memória afetiva forte ligada aos Trapalhões.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Destinado ao público infantil, singelo, com características próximas tanto do circo como das antigas chanchadas. Nos seus melhores exemplares, é um cinema com muito humor. Nos mais fracos, o humor dá lugar a um excesso de singeleza ou simplesmente não funciona.

Qual o legado histórico do cinema que Os Trapalhões deixaram para o país?
É a maior tradição de filmes infantis do cinema brasileiro. É, além disso, também a tradição mais rentável, já que vários dos filmes de maior bilheteria do país foram feitos por eles.

Podemos considerar Renato Aragão um dos maiores e melhores produtores de cinema do país?
Um dos maiores, com certeza, pois fez vários filmes de sucesso. Melhores, eu já não diria, já que os filmes seguem um mesmo padrão de produção. Isso não é uma crítica aos filmes ou à qualidade de Aragão como produtor, mas apenas um reconhecimento de que ele organizou um determinado modo de produção e não precisou nem quis mudá-lo dali em diante, satisfazendo-se com o que já tinha organizado.

Os Trapalhões sempre "brincaram" em parodiar filmes e clássicos estrangeiros de sucesso para o cinema. O que pensa a respeito dessa linha que eles seguiram?
Desde a época das chanchadas a paródia é, junto com o cinema de tons sociais (inclusive os filmes de gênero policial), a mais longa e rica tradição do cinema brasileiro. Vários dos nossos filmes mais interessantes são paródias de filmes ou gêneros.

Ariano Suassuna disse que o filme 'Os Trapalhões no Auto da Compadecida' era a melhor adaptação já feita da sua obra. Nesse filme, Renato disse que fez para os críticos o aplaudirem e chegar ao público adulto. Entretanto, apesar do sucesso de bilheteria, ele não repetiu a fórmula. Acredita que o público não estava preparado para um filme daquele porte, saindo dos padrões estabelecidos por eles?
Sinceramente, acho que Aragão é quem tem dificuldade em fazer filmes diferentes e lidar com recepções diferentes. A versão deles de "O auto da compadecida", como você já lembrou, fez um grande sucesso de público - menor do que os outros, mas ainda assim imenso. Ele preferiu tentar refazer a velha fórmula unicamente por escolha pessoal dele e possivelmente dos outros três.

Em seu artigo na revista Filme Cultura, chamado ‘Adaptação, Recriação – os Muitos Caminhos da Transposição de Textos Teatrais para o Cinema’, você diz que nas décadas de 1970 e 80, os filmes dos Trapalhões se configuravam como grandes blockbusters, sempre imersos em fórmulas que os tornaram repetitivos. Isso não é um mérito, já que a mesmice estava consagrada?
Na verdade, você confundiu meu artigo com outro da mesma edição. Eu não afirmei nada disso, nem sequer mencionei os Trapalhões no texto. Quem falou isso foi Gilberto Silva Jr. De todo modo, não concordo inteiramente com nenhuma das proposições. Não acredito que os filmes dos Trapalhões dos anos 70 e 80 sejam presos sempre à mesma fórmula (filmes como As minas do Rei Salomão, Os Saltimbancos, Os trapalhões na Serra Pelada e O Incrível monstro trapalhão são muito diferentes em termos de trama, de estrutura dramática e de estilo). E não acho que seja grande mérito saber repetir uma fórmula por esta já ser consagrada. Não é uma desonra, mas também não é um mérito: é simplesmente uma atitude, um procedimento. Mérito pode haver se, mesmo dentro do sistema de repetição de fórmula, um determinado filme mostrar qualidade própria.

Quais foram os melhores momentos dos Trapalhões no cinema? Os melhores filmes...
De primeira, lembro desses quatro que já citei: As minas do Rei Salomão, Os Saltimbancos, Os trapalhões na Serra Pelada e O Incrível monstro trapalhão.

Quais foram os piores momentos dos Trapalhões no cinema? Os piores filmes...
"O trapalhão na arca de noé", que o Renato Aragão fez sozinho, é bem fraco. Vi poucos dos filmes recentes, mas "O noviço rebelde" e "Simão, o fantasma trapalhão" também me pareceram fracos.

Os Trapalhões tinham também outra proposta: inserir diversas atrações midiáticas do momento com a intenção de atrair para as salas de cinema o maior número possível de espectadores dos mais diferentes gostos e faixas etárias. Por esse motivo, torna-se frequente a partir deste filme a presença de personalidades da TV como, por exemplo, o grupo Dominó e Gugu Liberato, que nessa época iniciava carreira de grande sucesso no SBT principalmente com o seu programa Viva a Noite. Isso era o melhor a fazer pensando na visão de um exigente e diversificado público infanto-juvenil?
É preciso entender de onde Aragão teve essa ideia: ele apenas repetiu o procedimento dos produtores de chanchadas, que fizeram isso inúmeras vezes na década de 50. Mas foi uma má ideia. A maior qualidade dos filmes dos Trapalhões era o humor, não era a singeleza, que facilmente pode desandar para o mau gosto. Essas participações nunca foram engraçadas.

Acredita que, pela importância que o quarteto possui no cinema, há pouca bibliografia a respeito deles?
Há pouca bibliografia, certamente. Mas isso é assim no mundo inteiro em relação ao cinema feito para crianças.

Em termos comparativos, Glauber Rocha, Cinema Novo, Cinema da Retomada, e outros, é praticamente insignificante o que se tem para ler e entender o fenômeno que os Trapalhões foram. Não é verdade?
De fato, a quantidade de textos, como já disse, não é muito grande. Por outro lado, a comparação me parece inteiramente descabida. O problema desse tipo de comparação é que ela sugere uma competição em busca de resultados. Os Trapalhões tiveram muito mais público do que os cinemanovistas. Já os cinemanovistas tiveram muito mais textos dedicados a seus filmes. E outras correntes do cinema brasileiro, como filmes marginais, pornochanchadas ou filmes pós-2000, tiveram um pouco dos dois, mas nada comparável a um ou outro. No entanto,  nada disso diz coisa alguma sobre o valor e a qualidade de cada um dos filmes que compuseram cada período. E, no caso dos Trapalhões, é preciso lembrar que eles se destinavam prioritariamente às crianças - que, com raras exceções, não escrevem livros ou teses. O que se pode observar, por outro lado, é que essas crianças cresceram e quase nenhuma delas se mostrou interessada em refletir longamente sobre estes filmes. Será ótimo se isso vier a acontecer com mais frequência no futuro.

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