quarta-feira, 26 de outubro de 2011

EU CURTO - Kassandra Speltri


VIDA MARIA

Animação é um artifício singelo que nos faz tremer quando produzido com sensibilidade, e é o caso em questão.

Trago hoje um curta dessa modalidade que deixou em mim a sensação de que não só tenho muito a aprender, mas também a de que devo arregaçar as mangas e dar continuidade a um assunto que deveria ser abertamente discutido pela sociedade sem demagogia ou melindres onde todos tapam o sol com peneira e segue-se a vida adiante a olhar cada um para o próprio umbigo.

Em “Vida Maria” de Márcio Ramos, a menina Maria José faz parte de uma triste estatística do nosso país, mas disso não preciso falar porque já estamos carecas de saber que esta é a realidade de muitas crianças.

Dito isto, destaco aqui a vida dessas pessoas que foram tolhidas de oportunidades e estão acostumadas a se contentar com esmolas e muitas vezes encontram nisso oportunidade pra ganhar a vida.

Essa é a cultura a que nos coagimos passivamente a viver, onde é permitido sem vergonha ou compaixão pelo ser humano que se transferira a exata medida da falta de escrúpulos dessas pessoas que poderiam acabar com esse ciclo vicioso onde não existe vida e sim sobrevida, de geração para geração. Essa é a nossa cultura!

Sendo assim, não acredito que somos todos iguais, temos um pedestal invisível onde percebemos que existe um lugar melhor pra algumas pessoas, e que ao que parece essas pessoas não são feitas do mesmo material descartável dos tidos como “pobres” e “marginais”, e em se tratando do “ser humano mulher” isso se agrava em muitos pontos. Mulher, mãe e artista então seria indiscutivelmente fora de questão, não existe!

Como agir? O que se pode fazer? Como se encaminhar para o término de um ciclo ruim? E se eu nunca perceber?

A produção e divulgação de obras como esta nos tornam ativos na prevenção desses vírus, a violência contra a mulher, por exemplo, é tida como pandemia nas estatísticas das secretarias de saúde.

Vamos acordar! Além de lindo, muito bem cuidado, singelo, delicado e profundo, essa obra fala de seres humanos e famílias de verdade que vivem a sustentabilidade forçada, aquela que talvez jamais tenha condições de consumir a insustentável margarina da propaganda de televisão que mostra a família ideal, linda e perfeita, mas que é família também.

Deixo meu post em forma de manifesto. Kassandra Speltri, desobediente civil, ativista, mãe, artista, marginal e MULHER!

Kassandra Speltri é atriz, dramaturga, diretora, artista plástica e colunista do blog ‘Os Curtos Filmes’.

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