sexta-feira, 2 de maio de 2014

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


R.F.LUCCHETTI RESPONDE A JOSÉ MOJICA MARINS

No início de sua novela ‘Minha Arma não Perdoa’, Mickey Spillane, um dos grandes nomes da Literatura Policial, dono de um fascinante estilo totalmente pulp diz: “Quando nos sentamos com todo o conforto em uma poltrona ao lado da lareira, nem paramos para pensar no que acontece lá fora. Pegamos um livro e lemos sobre diversos assuntos, vivendo emoções de personagens e eventos”. É o que eu poderia estar fazendo neste momento e não tendo de comentar certos tópicos das declarações do sr. José Mojica Marins em entrevista à revista Wizemania e ao site ‘Boca do Inferno’ em 24 de março de 2011 mas que só agora chegou ao meu conhecimento remetido por um amigo dado a Internet, uma vez que nem computador eu tenho.

As respostas vão pela ordem das declarações do sr. José Mojica Marins esclarecendo dúvidas e desfazendo inverdades nelas contidas.

A primeira pergunta já foi feita de maneira equivocada, talvez por desconhecimento do entrevistador:

“Você foi um dos primeiros a lançar histórias em quadrinhos de terror nacional com a revista ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (publicada de janeiro a agosto de 1969) que vendeu horrores, mas durou apenas até o sexto número. Conte-nos como foi esse fenômeno”.

Mojica: “Eu fiz a minha revista de quadrinhos e a tiraram da banca. Isso me deu um baita prejuízo”.

A bem da verdade cristalina, o sr. José Mojica Marins não fez nenhuma revista de histórias em quadrinhos, e ninguém a tirou da banca. Foi ele quem a tirou da banca. Portanto, não teve nenhum prejuízo. Só ganhou com ela. Se houve alguém que teve prejuízo foi a Editora Prelúdio que bancou a revista e perdeu horrores. Eu explico porque. Só que vou ter de recuar num flashback.

O Zé do Caixão do programa ‘Além, Muito Além do Além’ (1967) da TV Bandeirantes que posteriormente apareceria na revista de histórias em quadrinhos ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ (1969) publicado pela Editora Prelúdio é uma entidade conhecedora de muitas histórias misteriosas e estranhas, e conforme a denominação do programa de TV, é habitante de uma outra dimensão, não tendo nenhuma participação como personagem das histórias, atuando apenas como narrador/apresentador.

Essa entidade nada tem a ver com Josefel Zanatas dos dois primeiros filmes, ‘À Meia-Noite Levarei sua Alma’, de 1964 e ‘Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver’, de 1966. Nesses dois filmes, seu personagem principal, Josefel Zanatas tem a alcunha de “Zé do Caixão”, uma vez que ele é agente funerário de um lugarejo perdido no sertão brasileiro, onde geralmente todos os comerciantes são designados por Zé: “Zé da Quitanda”, “Zé do Açougue”, “Zé Sapateiro”... Mas trata-se de um ser desprovido de qualquer humanidade e moral, um psicopata maldoso, ateu convicto que está sempre desafiando as forças do bem e da natureza. Enfim, um agente do mal, a verdadeira “encarnação do demônio” (seu nome lido ao contrário: Satanás) à procura da mulher perfeita, que tinha que ser ateia como ele, para gerar-lhe um filho, uma vez que só acredita na perpetuação da vida através do sangue.

Essa minha definição do personagem Josefel Zanataz e o Zé do Caixão, entidade, fica evidente a qualquer leitor atento da revista lendo a “Filosofia de Zé do Caixão” e na terceira página, acima do logotipo onde escrevi: “Acontecimentos verídicos dos anais secretos de Zé do Caixão”.

Durante a década de 1960 até meados da seguinte, São Paulo, capital, viveu o apogeu das histórias em quadrinhos de horror/terror.

Nessa época eu já residia em São Paulo e tive a oportunidade de trabalhar com todos os artistas em atividade notadamente com o italiano Nico Rosso que eu já o admirava desde os meus tempos de Ribeirão Preto.

Inicialmente, nos curvamos às editoras, produzindo histórias avulsas, até criarmos ‘A Cripta’. Nessa revista, pela primeira no Brasil, foi usado desenhos em meio tom. Seu formato era o de um gibi aberto. Capa plastificada. Até então, as histórias eram calcadas em dráculas, frankensteins e lobisomens. Nós viemos com uma nova proposta: roteiros bem elaborados, fugindo dessa mesmice, criamos o Príncipe Nosferatu. Uma história de carochinha para adultos, com fadas, duendes, lagos, barqueiros fantasmas, castelos em florestas encantadas, tudo narrado uma linguagem poética. O jornalista A. Carvalhaes assim se referiu a ela em sua seção no Diário de S. Paulo de 25 de janeiro de 1968: “a cripta veio dar uma nova dimensão às histórias em quadrinhos de terror”.

Mas logo nos desencantamos porque a editora que publicava ‘A Cripta’, a Taika, não dava o merecido tratamento gráfico que ela merecia. E quando o descaso chegou ao absurdo de sair uma história sem título, foi a gota d’água, paramos e retornamos às histórias avulsas.

Sou extremamente tímido e em contrapartida, extremamente inquieto. Estou sempre maquinando projetos, alguns viáveis e outros nem tanto. E foi assim que comecei a pensar em algo que viesse substituir ‘A Cripta’. Mas dado ao status alcançado por ela, tinha que ser superior ou igual. Mas, o que?

Foi só, quando ao terminar o script “As Mulheres do sr. A”, para o programa ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ e quando o envelopava e escrevia o título do programa no grande envelope pardo que acendeu aquela luzinha no meu cérebro: “Por que não uma revista de história em quadrinhos com o Zé do Caixão?”.

Mal o dia amanheceu corri contar a novidade ao Nico Rosso que recebeu com entusiasmo a ideia de fazermos uma revista com o Zé do Caixão. Quanto ao sr. Mojica não foi diferente. Foi quando fiquei sabendo do seu gosto pelas histórias em quadrinhos e que as colecionava.

Para a história do primeiro número da revista, escolhi “Noite Negra”, a quarta apresentada no programa ‘Além, Muito Além do Além’, da TV Bandeirantes. Em dois dias eu entregava ao Nico a adaptação do meu próprio script, conservando o título.

E, enquanto o Nico Rosso ocupava-se em desenhar a história, e como o nome da revista era ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’ nada mais natural do que adaptar o filme em forma de fotonovela. Mas foi com extrema dificuldade, devido a escassez do material fotográfico extraído dos fotogramas do filme que consegui montar o primeiro episodio, “O Fabricante de Bonecas”. Os demais não foram diferentes.

Como eram o meu desejo ocupar todos os espaços da revista, na segunda capa criei “A Filosofia do Zé do Caixão”. Na terceira capa, dois episódios fantásticos, reais. E na quarta capa, uma pequena biografia de Nostradamus. E esse foi também o esquema que usei para os demais números.

Enfim, eu produzi a revista de capa a capa e também fui o responsável pela sua diagramação e produção gráfica. Fazia todo esse trabalho sozinho, sequer conhecia pest-up.

Quando quinze dias mais tarde, o Nico me entregou a história desenhada, letreirada e com a respectiva capa, as demais páginas já estavam prontas. Para não perder tempo, eu já havia feito o desenho que deveria ilustrar a terceira capa e conseguira uma antiga ilustração de Nostradamus que deveria fazer fundo com o seu texto.

Com a revista inteiramente produzida, achei que o passo seguinte, seria a parte mais fácil do projeto: encontrar uma editora que se interessasse publica-la. Ledo engano. A primeira editora que eu procurei foi a Prelúdio, porque, na época, além de conselheiro editorial também fazia para ele alguns freelancers.

Embora seus proprietários, os srs. Armando Augusto Lopes e Arlindo Pinto de Souza, tenham gostado do que viram, mas por serem católicos praticantes, ficaram temerosos em publicá-las.

Sobraçando os originais, começou, então, a minha peregrinação pelas editoras. A segunda que procurei foi a Taika. Até que também gostaram, mas acharam um projeto demasiado caro, que demandaria um grande investimento. A terceira foi a Gráfica Bentivenha. Seu proprietário, o bom sr. Salvador também argumentou que não teria condições de arcar com sua publicação, uma vez que publicava somente modestas revistas de histórias em quadrinhos de baixo orçamento e de lançamento irregular. Fui, então, levado pelo roteirista e desenhista, Gedeone Malagola, amigo pessoal do sr. Miguel Penteado, fomos à sua gráfica e editora. Mostrei-lhe o material e perguntei-lhe da possibilidade de ele publicá-lo. Após examina-lo, e com a franqueza que o caracterizava, ele foi curto e grosso na sua resposta: “Nem que você me pagasse não publicaria um lixo como esse, de tão mau gosto!”. Ao deixarmos a editora, o Gedeone se desculpou, constrangido. Foi, então que me restou a última porta para bater e mendigar: a Editora Saber. O sr. Savério Fittipaldi, seu proprietário, não foi diferente. Embora ele fosse um adepto do gênero (eu mesmo já havia feito para ele, com relativo sucesso) detestava Zé do Caixão. E, como fazia-lhe muitos freelanceres, tínhamos uma boa amizade, disse-me: “Ah, Lucchetti, não sei como você se presta a desperdiçar seu talento com esse tipo de trabalho!”.

(Alguns anos mais tarde ouvi do Wilson Roveri, conceituado jornalista e radialista de Ribeirão Preto, quando numa das minhas visitas à cidade, fui encontra-lo na prefeitura. E no momento em que descíamos as escadas do prédio, ele disse-me: “Você está perdendo seu tempo prestando seu talento à alguém que sequer o prestigia. Tenho lido e visto muitas entrevistas do Mojica, ele nunca cita o seu nome. É como se ele fizesse tudo sozinho. Não perca seu tempo pondo azeitonas nas empadas de quem vai comê-la sozinho”. Na verdade, não gostei do que ouvia, principalmente vindo de uma pessoa amiga. Mas hoje, se ele não tivesse dito uma verdade, eu não estaria, contragosto, dando este depoimento).

Voltei para casa, alquebrado e abatido. As alegres melodias natalinas da Avenida Celso Garcia, com suas lojas e vitrines enfeitadas para o Natal, sequer me contagiaram. Vinha-me à mente, a imagem de um cara, arqueado, caminhando, seguido pelo seu cãozinho... alheio a tudo. Achava-me a perfeita encarnação dos personagens de romance de Dostoevski, ‘Humilhados e Ofendidos’. Todo o meu entusiasmo havia ido por água abaixo. Cheguei em casa, joguei a papelada sobre a escrivaninha a cai na cadeira que só não caiu para trás porque era uma cadeira de mole e seu encosto inclinou.

E quando minha mulher apareceu na porta e deparou com todos aqueles desenhos esparramados sobre a escrivaninha, olhou-me interrogativamente, “É isso que você está vendo”, disse-lhe. “Perdemos nosso tempo. Ninguém quer publicar a revista e ainda fui humilhado. Agora, como vou dizer isso ao Nico? Fui eu quem o arrastou nessa aventura maluca. Ele perdeu duas semanas de trabalho! É muita coisa!”. A Tereza não disse nada. Calmamente, organizou toda a papelada e depois falou: “Vamos almoçar”.

Naquela tarde, não fiz nada. Fazer o quê? Então, refugiei-me no sono.

Somente na manhã seguinte, com o ânimo renovado, fiz minha derradeira tentativa. Voltei à Prelúdio que ficava à poucos quarteirões da minha casa. Como eu tinha mais intimidade com o sr. Arlindo, falei-lhe que em nada a publicação da revista iria incorrer numa falta de respeito à qualquer religião. Ao contrário, sua narrativa encerrava uma moral. A moral de que nunca devemos desafiar as forças do Mal.

Ele examinou uma vez mais os desenhos e disse que voltaria a falar com o Armando. E eu fui para minha sala, onde tinha de escrever uma fotonovela para a revista ‘Melodias’.

Às onze e meia, quase na hora de encerrar o expediente da manhã, o sr. Arlindo me chamou sorrindo disse-me que convencera o Armando a publicar ‘O Estranho Mundo de Zé do Caixão’, e perguntou-me sobre a história seguinte, uma vez que tinha a intenção de lançar rigorosamente, a cada trinta dias, um novo número. “A periodicidade é a alma de qualquer publicação”, disse. Na tarde daquele mesmo dia, o sr. Arlindo levou ao fotolito do Valtão (Fotolito Astra) que ficava na Rua Carneiro Leão, os originais da revista. Mas teve a infelicidade de esbarrar com um tal de Reinaldo de Oliveira, produtor gráfico, que havia, inclusive em data recente, feito uma rápida e desastrosa passagem pela Prelúdio. Ingenuamente, o sr. Arlindo mostrou-lhe os originais, explanando detalhes de tão ambicioso projeto. Com um sorriso de mofa e com sua petulância o Reinaldo vaticinou: Isso é uma loucura! O Mojica não está com essa ‘bola toda’. Seu público nada tem a ver com quadrinhos, porque é analfabeto. E também, em são consciência nenhum editor lançaria uma publicação em janeiro. O senhor está jogando fora o seu dinheiro!”.

Sem se deixar impressionar por tal vaticínio o sr. Arlindo solicitou ao Valtão que preparasse os fotolitos com a máxima urgência. Tinha a intenção de lançar a revista logo nos primeiros dias de janeiro.

Naquele final de no, as rotativas da Prelúdio trabalharam diuturnamente e, nos primeiros dias do mês de janeiro de 1969, as bancas da cidade exibiam o primeiro número de uma revista de histórias em quadrinhos totalmente diferenciada das demais. Seu título: O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

Embora estivesse sendo vendida por um preço muito mais elevado do que um gibi comum, a primeira impressão de 20.000 exemplares se esgotou rapidamente, sem sequer ser distribuída fora da cidade de São Paulo, sendo necessário fazer uma nova reimpressão para distribuição nacional. E talvez um acontecimento inédito no mundo: enquanto os demais números da revista se sucediam a cada trinta dias, novas reimpressões eram feitas de seus números anteriores. Certo dia, ao chegar na Prelúdio, vi uma carreta estacionada diante do seu prédio, da qual estavam sendo descarregados enormes bobinas de papel. A quantidade foi tão grande que abarrotou seu depósito e ainda tiveram de ser distribuídas por outras dependências da editora. Como era um papel especial ele se destinava unicamente à revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

Recordo-me bem. Quando o quarto número da revista estava indo para as bancas, o Reinaldo de Oliveira acompanhado por mais dois desenhistas, apareceu nos estúdios do Mojica. Que estaria ele fazendo ali? Que estaria maquinando?

Embora nada tivesse que fazer na Prelúdio, no dia seguinte amanheci na editora e falei aos srs. Armando e Arlindo “que havia urubus rondando o Mojica e que eles deveriam, urgentemente, pegá-lo num contrato”. O sr. Armando recebeu aquela minha advertência com passividade e argumentou que eu estava apavorado atoa: “O Mojica é um homem íntegro e de palavra. Será incapaz de qualquer ato de traição contra nós.”.

NÃO?! Não deu outra.

Talvez, dois ou três dias mais tarde, chegou à Prelúdio, uma correspondência registrada em cartório, comunicando que a partir do número 5 a revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão passaria a ser publicada pela Editora Dorkas, com a qual o sr. José Mojica Marins havia assinado contrato de exclusividade. E que, daquela data em diante, a Prelúdio estaria proibida de usar s marca “Zé do Caixão”.

E foi naquela mesma tarde, que o sr. José Mojica Marins apareceu em casa e, efusivamente, contou-me que havia assinado contrato com uma nova editora que passaria a lançar a revista e que esse contrato tanto favorecia ele quanto a mim. Como se tratava de uma traição anunciada, o impacto não foi devastador e disse-me ainda que o diretor da editora, Reinaldo de Oliveira, queria falar comigo.

Não acreditava naquilo que ouvia. Além de me sentir usurpado, miseravelmente roubado. Porque a revista era uma criação minha. Eu a idealizara e produzira. E, para implanta-la, percorri editora por editora, me humilhara e fora humilhado. E agora, simplesmente, a tomavam de mim e ainda tinha que me reportar ao sr. Reinaldo de Oliveira, para saber quais suas ordens em relação à revista. Que mundo é este?

Eu sou uma pessoa de natureza passiva, caso contrário estaria distribuindo sopapos à torto e à direito. E foi, por pura brincadeira, para conferir até onde ia a safadeza da natureza humana que me dirigi aos escritórios da Dorkas.

Ele ficava situado num edifício luxuoso da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Fui recepcionado por uma loura que parecia ter saído de um filme noir. Uma coisa eu tinha de reconhecer: o bom gosto que o Reinaldo tinha para escolher suas funcionárias. Ele conduziu-me até um conjunto de estofados, logo na entrada de um grande salão repleto de mesas mas totalmente deserto (talvez por ser hora de almoço) e a mocinha disse-me que o sr. Reinaldo me aguardava e se eu queria um café, chá ou uísque. Respondi que não. Só queria saber o que o sr. Reinaldo poderia querer de mim. Ele estava sentado diante de uma enorme mesa, lá no fundo do salão, talvez fingindo que trabalhava. Para que o leitor se situa sobre a ocasião em que isso aconteceu, lembro-me de que na mesinha, ao lado da poltrona, havia um exemplar do primeiro número da Ele Ela. Fiquei, então, folheando a revista e aguardando. Foi só, depois de uns quinze minutos que ele se dignou me chamar.

Ouvi dele, um discurso eloquente. De que a Dorkas era uma editora com um futuro promissor e que, em nada, a mudança “da revista do Mojica” afetaria minha situação. Muito ao contrário, ela só me traria benefícios. Inclusive teria porcentagem sobre sua venda.

Saí dali e fui me refugiar na casa do Nico Rosso. Encontrei-o quase apoplético. Falou-me que um tal de Reinaldo havia estado lá com um recado do Mojica. Era para ele entregar todo o material da revista que estivesse em seu poder. Foi assim que o Reinaldo se apoderou da história “Magia Negra” que já estava pronta e do roteiro “Maldição das Aranhas” da qual já havia desenhado uma meia dúzia de páginas mas que num acesso de fúria incontida, rasgou-as.

Como não poderia deixar de acontecer, nos quatro meses seguintes, a Dorkas conseguiu lançar apenas dois números da revista, as de números 5 e 6. Mas totalmente descaracterizadas e sequer meu nome figurava nelas. A não ser “Magia Negra” porque já estava letreirada. Quanto “A Maldição das Aranhas” só constava como sendo uma “estória de José Mojica Marins” e fora desenhada por Rodolfo Zalla, cujo estilo é totalmente diferente ao do Nico Rosso que conseguira imprimir o mesmo estilo barroco dos filmes do Mojica e do programa da TV Bandeirantes.

Entrementes, a Prelúdio se debatia afundada numa crise financeira irreversível que a levaria a pedir concordata.

Quanto a mim, não foi muito diferente. Tive de vender o piano da minha mulher para pagar o aluguel da casa e mendigar freelances.

Sem condições de continuar a publicar a revista, a Dorkas liberou o sr. José Mojica Marins que procurou a Prelúdio numa tentativa de ela prosseguir com a publicação.

Procurado pelos srs. Armando e Arlindo sobre a possibilidade de voltarmos com O Estranho Mundo de Zé do Caixão em quadrinhos, fiz ver a eles que a descaracterização da revista (mudança de formato e totalmente repaginada) e o grande hiato entre um número e outro, havia “queimado”, não só a revista como o próprio Zé do Caixão. Não era essa a primeira vez que isso acontecia. O sr. Mojica agira de forma inconsequente quando trocou a TV Bandeirantes pela TV Tupi. Na Bandeirantes o programa “Além, Muito Além do Além” era uma de suas principais atrações entre o público C e D, e passara para a Tupi, na ilusão que lá, além de manter seu público atingiria ainda os de classe A e B. Resultado: não atingiu nem um e nem o outro porque o primitivismo da Bandeirantes que seguia fielmente a linha de seus filmes, ao ser substituído pela sofisticação da Tupi redundou num fragoroso fracasso. Tudo isso aconteceu em consequência da instabilidade do sr. Mojica. Mas agora havia o agravante de que ele tomara revista de mim, sem me consultar e a destruíra. Por isso qual a motivação que me levaria a voltar?

Mas, os rogos do sr. Arlindo, acabou por me comover e só foi por isso que eu concordei em imaginar uma nova revista. Porém, não foi tarefa fácil convencer o Nico Rosso em ilustra-la.

Desse modo criamos Zé do Caixão no Reino do Terror. O primeiro número saiu em abril de 1970 e o segundo em maio. Embora houvessem mais dois números prontos, os editores não se animaram em lança-los. A Venda não atingiu nem 20% de exemplares. O que significou mais prejuízo. Realmente, o público não mais acreditava em Zé do Caixão. Todas as atabalhoadas mudanças de canal, de estilo de programas e a mesmíssima situação se repetindo com a revista, Zé do Caixão estava irremediavelmente “queimado”.

Essa é a verdadeira e melancólica história da revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Porque senti na própria pele.

Uma das perguntas seguintes foi:

“E todos aqueles filmes que estavam previstos para a época do Lucchetti, você pretende lançar algum?”

Mojica: “O sonho do Lucchetti era fazer alguma coisa da trilogia. (...) É um cara genial, que faz roteiro rápido mas ele tem esse problema da Inglaterra, que terror tem que ter castelo. Pro Zé do Caixão não dá certo.”

Como sempre, quando conversávamos, o sr. Mojica acenava com a possibilidade de fazermos alguma coisa juntos, eu fiz “o meu roteiro do Encarnação do Demônio”. A minha história se passava na mesma época dos seus dois filmes anteriores. Mesmo cenário, mesma ambientação. Começava com o final de ‘Esta Noite Encarnarei no seu Cadáver’, quando Josefel Zanatas morre depois de levar um tiro de carabina nas costas e tragado pelas águas putrefatas do pântano em meio aos esqueletos de suas vítimas, surgindo sobre as águas o reflexo de uma cruz. Não há dúvida quanto à morte do agente funerário, sem nenhuma possibilidade de retornar à vida.

Seguindo essa coerência, Josefel Zanatas regressa do inferno com a missão de encontrar a mulher que deveria gerar seu filho: o Anti-Cristo. Sua aparência seria a atual do sr. Mojica. Ele se apresentaria para assumir o cargo de diretor do ginásio facilitando-lhe o acesso à sociedade local: prefeito, juiz, vereadores, fazendeiros, etc. só no final é que se apresentaria como a Encarnação do Demônio.

Estava tudo escrito e decupado, aguardando a tal oportunidade de voltar a trabalharmos juntos.

Mas, quando vi numa entrevista, ele exibindo uma encadernação vermelha dizendo que era o roteiro do Encarnação do Demônio. Então, vi que havia perdido meu tempo e rasguei tudo quanto havia escrito. Não tinha sentido de guardar algo que nunca se concretizaria. Perdera meu tempo. E quanto a eu achar “que terror tem que ter castelo”. Só queria saber onde eu falei isso e para quem falei. Não bebo e não estou esclerosado. Logo deduzo que ele inventou essa bobagem. E quando foi que eu coloquei um castelo nos roteiros que fiz para ele? Só que a bem da verdade, devo dizer que castelo é uma coisa que fascina desde a infância. Sempre gostei da Literatura Gótica e castelo está presente nela desde ‘O Castelo de Otranto’, de Horace Walpole. Uma obra-prima.


Rubens Francisco Lucchetti.

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