domingo, 18 de março de 2012

BISTURI - Rejane K. Arruda

Delírio na Lira

Depois de algum tempo pesquisando, dando aula e atuando, acabo chegando à conclusão que o que o ator encena é a sua relação com as coisas. Não existe personagem ou existe. Se existe, fragmentado em uma construção estelar: cacos que se harmonizam ou se chocam, uma complexa construção de significantes em oposições e deslizamentos, por onde o seu desejo desliza e encontra o corpo. Se não existe, se é o ator se relacionando com os fatos e cutucado por uma direção, qual a diferença? De qualquer forma o que se encena é um relacionar-se com materiais que chegam até ele ou ele busca, com sede de encenar justamente alguma coisa que o condena a ser o que é.

Quando vejo um filme como “A Lira do Delírio”, encontro a simplicidade deste tipo de encenação. Aquilo simplesmente é assim. Há um relacionar-se com o carnaval e o seu excesso, a alegria, o desbunde, o êxtase e o outro – que é filmado, e montado. Se isto é textual (dito por Walter Lima Jr) tanto melhor. O filme dá testemunho de que situações ficcionais são invadidas pelo desejo do ator. Pelo que traz em improvisação – já que se estimula.

O texto improvisado implica as escolhas momentâneas das palavras e os “ajustamentos” ao que o outro entrega para o jogo. Se há uma relação estabelecida, nova, naquele instante, com o que o outro dá, não é possível dela escapar. O que resta ao ator é encená-la, inventando no momento as palavras, já que tem um guia: a situação pré-estabelecida.

A lógica desta situação então lhe serve de morada, já que decorada pelo seu imaginário, pelo seu desejo e repertório de vida. Colocar-se na situação da personagem nada mais é do que estimular-se a entrar em um cômodo vazio. Se não há desejo a imperar ali e desenhar nas paredes, não há o que fazer. O que estimula o ator é a perspectiva de encenar a sua relação com o que pode pôr de seu naquela casa. O ator dá a ver algo que possui de próprio e que cabe naquela casa. A situação da personagem é um lugar de depósitos de materiais antigos.

1 Ver em FERREIRA, Jairo. “O Cinema Delirante de Walter Lima Jr”. São Paulo: catálogo da mostra “Jairo Ferreira: Cinema de Invenção”, 2012. Pg 86-89.

2 Conceito desenvolvido por Stanislavski. Ver em STANISLAVSKI, C. “A Preparação do Ator”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.

Há de se respeitar o que o ator tem a dar, portanto. O diretor muitas vezes, bêbado também de desejo, quer outra coisa, e força o ator a mostrar-lhe o que não tem. Se a incidência e a encenação dependem de materiais próprios, o que podem os diretores a não ser usar da melhor forma possível o que os atores tem a dar? Se dali pode sair uma riqueza de singularidade sem tamanho porque centram seus olhos em um ideal?


Oferecer para o ator procedimentos para que ele possa alinhavar suas estrelas, acho que deve ser a tarefa dos diretores. Assim leio o trabalho de Walter Lima Jr no filme “A Lira do Delírio”, onde vemos as atuações geniais de Anecy Rocha, Paulo César Pereio, Cláudio Marzo, Antônio Pedro, Tonico Pereira, Otoniel Serra, João Loredo, Lene Nunes, Rozita Thomaz Lopes.


Rejane Kasting Arruda, é atriz e pesquisadora. Atua em cinema e teatro. Faz pesquisa na Universidade de São Paulo junto ao Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator. Ministra aulas de atuação para cinema. Participou dos filmes Corpo, O Veneno da
Madrugada, Tanta, Iminente, Edifício do Tesouro e Medo de Sangue, entre outros. É também colunista do blog 'Os Curtos Filmes', onde assina uma coluna mensal.

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