quarta-feira, 17 de outubro de 2012

BISTURI - Rejane K. Arruda

Mônica Vitti na Linguagem Antonioni: Notas sobre “O Deserto Vermelho”
Rejane Kasting Arruda
Apesar da cor já estar sendo utilizada a um bom tempo no cinema, é somente em 1964, com “Deserto Vermelho”, que ela aparece em Antonioni. E como material de uma escrita fílmica que porta abstração, parece assumir um valor de contrassenso, de estranhamento, muitas vezes em extensão à construção da personagem feminina interpretada por Monica Vitti.
Logo de início, o verde do casaco de Giuliana “grita” em contraste com a palidez do cenário. O mundo está desfocado. Tanto o jogo do desfoque quanto da cor e parece misturar-se a plasticidade do olhar da mulher. São muitos materiais por onde ela constrói a angústia: os gestos trêmulos, o balbucio da voz, as falas interpelativas. Mas a artificialidade da cor parece se descolar dos ambientes, como se o fundo fosse falso.
A diegese convive com a abstração, apresentada de maneira clara e evidente: o trauma foi grande; Giuliana ainda não voltou ao normal; está tentando montar um negócio; eles têm um filho e o casamento não vai bem. É quando outro homem aparece. Por dar pouco valor ao trabalho e estar também em uma espécie de errância, parece combinar melhor com ela. Ele imediatamente se apaixona pela fêmea. Quanto ao marido, o que encontra é a intimidade, a camisola, a descabelada.
A sonoplastia estridente faz alusão às vozes que a personagem feminina escuta. A mulher contorcida, sozinha no hall frio de paredes brancas e o marido em contra-plongè. O filme salta desta parede para outra: cheia de musgos. Há pensamento neste movimento? De repente, o olho de Giuliana. Gestos muito rápidos e muita tinta na parede. “São cores que não perturbam”, ela diz, com um displicente gesto de ajeitar o cabelo caído na testa. Para uma ilusão de naturalidade? Uma folha de jornal que cai no chão adquire um valor incrível quando se enlaça aos pés dela.
O cinema de Antonioni é cheio de recortes, de materiais que saltam aos olhos para depois se perder na brancura, na indeterminação, no alheamento. Ela está alheia. “Estou sempre cansada”, diz. Mulheres enigmáticas, perturbadas, estas do Antonioni! O homem a acompanha de perto. Ela é linda e frágil. Ele a distrai com qualquer coisa. Com as suas mãozinhas misturadas à estampa do sofá, ela parece criança. O homem escuta as suas histórias: “Como se estivesse escorregando num plano inclinado, caindo”. “Quem sou eu?” O ambiente: a areia, as árvores, o navio – tudo desfocado. Uma linha, apenas, definida: o seu rosto.
De repente, outra mulher: vulgar e de pés grandes. Ela se diverte com os casais. Lá fora tudo é cinza. “Parece que lavei os olhos. O que devo fazer com meus olhos?” ela diz. A presença inesperada do navio. Afinal, alguém gritou ou não? Às vezes, parece Beckett! Os rostos na neblina. Somem. “Sabe o que quero? Ter todas as pessoas que me querem bem aqui, como um muro” ela diz. A palavra prenhe de significação.
Bicho abatido estático despedaçado pela câmera-linguagem de Antonioni enquanto o homem invade os seus cabelos e o seu ombro. O sexo não. Depois, mais que isto, em meio à imprecisão do enquadramento, agora muito de perto, difuso. “Faço de tudo para voltar à realidade” ela diz. “Há algo de terrível na realidade e eu não sei o que é”.
Em todo lugar por onde ela passa tem cores. Mas os pássaros não passam mais pela fumaça amarela, pois sabem que é tóxica.

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