quarta-feira, 24 de outubro de 2012

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


Texto em que Lucchetti narra as circunstancias como ocorreram a possibilidade da publicação do seu primeiro conto.

Na rua Guaicurús, junto ao ponto que eu utilizava para pegar o bonde que me levaria à cidade, havia uma gráfica. Enquanto aguardava minha condução, ficava olhando encantado para as máquinas imprimindo e produzindo um ruído cadenciado que soava aos meus ouvidos como suave melodia, que embalava meu sonho: imprimir ali minhas histórias que a essa época já se amontoavam numa das gavetas do guarda-roupa da família. E durante todo o trajeto de bonde até a cidade, eu ficava sonhando, vendo meus contos impressos com belas ilustrações, tal como via nas revistas pulps das quais eu era leitor e colecionador.

Um dia descobri que naquela gráfica imprimiam um jornalzinho que circulava uma vez por semana, ‘O Lapiano’. Imediatamente fui atacado de súbita ousadia. Escolhi um dos contos que me pareceu o melhor, coloquei-o num envelope e mandei meu pai subscritá-lo. Ele tinha uma caligrafia bonita e eu achava que o envelope subscritado por ele daria mais crédito.

Na manhã seguinte, entrei timidamente na pequena gráfica, encaminhei-me até o alambrado de madeira, atrás da qual, sentado à uma escrivaninha entulhada de papéis, estava um senhor gordo, rosto redondo, muito vermelho e calvo. Usava uma viseira presa à testa e as mangas da camisa, ligeiramente erguidas e presas por elásticos, parecendo com uma liga. Somente muito depois, fiquei sabendo que a viseira esverdeada era para que a luz que pendia sobre ele não o atrapalhasse ao revisar as provas tipográficas e que as mangas erguidas era para não sujar os punhos engomados. De onde ele estava perguntou-me que é que eu queria. Estendi o braço e me debrucei sobre o alambrado, estendendo-lhe o envelope. E sem uma palavra fui embora. Naquele dia, não esperei o bonde naquele ponto, na verdade nunca mais voltei e ele.

E qual não foi a minha surpresa, quando uma semana mais tarde, vi meu conto impresso. Era “A Única Testemunha”, calcado nos contos de Edgar Allan Poe, “O Coração Revelador” e “O Gato Preto” que eu havia lido numa de minhas revistas policiais.

Ver meu primeiro trabalho publicado com letra de imprensa, foi uma sensação indescritível. Com o jornalzinho na mão, fiquei vagando dando voltas pelo bairro, com uma vontade imensa de dizer a cada transeunte: “Olha, este conto é meu! Fui eu quem o escreveu”

Meus olhos estavam banhados de alegria que não conseguia ler além do título.

Momento supremo da existência onde conseguimos tocar o imponderável. Basta um instante para conseguimos ter nas mãos a essência da vida, o que muitos não conseguem em toda uma existência, embora bem sucedidos materialmente.

Era um sonho impossível que se realizava. Ele aconteceu no longínquo 31 de outubro de 1942, um sábado. E desde então aprendi que é aos sábados que os milagres ocorrem.

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