segunda-feira, 5 de agosto de 2013

BISTURI - Rejane K. Arruda

Contra o Mito da Autenticidade: Lee J. Cobb e De Niro

Rejane K. Arruda

A atuação em filmes de gênero quase nunca é debatida. No entanto, ela apresenta materiais de uma precisão muitas vezes cirúrgica. A imobilidade trêmula dos filmes de suspense; a densidade psicológica; ou o ar blasé e descomprometido (antes de começar a tensão) tendendo para o cotidiano mimético: são arranjos que deveriam ser dissecados. Registros que se opõem e encontram equilíbrio conforme o gênero e o estilo do ator.

 “O Homem do Oeste” é um western de 1958 de Anthony Mann que traz no elenco Gary Cooper e Lee J. Cobb. Poderíamos dizer que o Western, tal como o suspense, implica um estilo específico de atuação? Esta pergunta situa uma porta entrada na análise do filme, a partir da qual, ao salpicar impressões, acabamos por nos deparar com uma evidência: não o Western como estilo de atuação, mas como um gênero que potencializa certos estilos (que passam de ator para ator).

Logo o contraste se desenha: a comicidade e a afetação do coadjuvante – enquanto o protagonista, imbuído de mistério, prima pela contenção, neutralidade, imobilidade, sustentando o tempo dilatado de sucessivas tentativas (da câmera) de capturar sua reação. Quando são assaltados, enquanto o coadjuvante (tomado pela exacerbação) se exaspera, Gary Cooper, apesar de perder o dinheiro destinado à contratação de uma professora (para o vilarejo onde vive), não esboça uma reação. Apenas o tempo da câmera registra-lo. Uma espécie de abandono parece preservar a força de um mistério qualquer – material que se articula ao gênero – enquanto a narrativa é construída. Nesta ausência de qualquer reação denotativa, não se sabe da onde vem seu dinheiro; por que fornece nomes diferentes ou estava armado. No entanto, o gênero garante: ele é o mocinho.

Esta Hollywood clássica, onde a música reforça as ações, situa um tipo de tessitura que, no teatro, chamamos dramática. Isto enquanto o espectador dialoga, consigo mesmo, criando expectativa, passando por um caminho de construção de uma fantasia que vem ou não a se realizar. E é nesta fantasia, banhada por luzes e sombras, ao estilo de um tenebrismo, que Lee J.  Coob, “cria de Kazan”, aparece. Lee J. Coob, que atuou como o chefe do “Sindicato de Ladrões” em 1954, agora é Dok Tobin, o tio bandido. Tio que Cooper abandonou e que ainda assim, graças a uma configuração familiar típica de Mann, tem o seu amor, em detrimento do primo que (não nobre, belo ou misterioso, tampouco arrependido) se manteve fiel ao bando. 

Logo a mocinha blasé se apaixona por aquele que a protege de um estupro – e depois revela que, no passado, aprendeu a fazer coisas terríveis, mas se redimiu diante de uma sociedade que o recebeu de braços abertos. Uma sociedade onde fez laços que precisa preservar apesar do passado bater-lhe à porta. Uma estrutura de melodrama? Talvez, mas não com um final feliz. Com a antiga família dizimada, o personagem de Gary Cooper retorna para o seio do lar – deixando a mocinha com o seu inevitável destino de cantora solitária (que, no entanto, descobre o amor pelo único homem que a respeitou). E assim como o mocinho não é só mocinho (pois mata aquele que o criou), o vilão também não é só um vilão. 

Há espaço para um tipo de atuação surpreendente. Que beira o grotesco, em oposição a certo drama psicológico brotando da relação com o sobrinho. Lee J. Cobb passa por louco furioso. Trata-se de um registro que não tem muito bem um lugar, pois cheio de gritos, idiossincrasias, caretas. Passa por bêbado, por perverso testando o limite do seu poder, passa por pai amoroso sedento de companhia, por um homem desconfiado e ambíguo, por aquele macho que não pode deixar de ser.

Mas o mais interessante é quando percebemos sua escola. Quando vemos, na figura de Lee J. Coob, também o Robert de Niro: o mesmo esgar, o olhar agudo, o balbucio, a risada, a corpulência, o grito. Dando aulas me deparo muitas vezes com os atores evitando partir das referências – para não copiar, para não diminuir-lhes a autenticidade. Mas se De Niro tem, em parte, o mesmo estilo (a escola) de Lee J. Coob (e isto salta aos olhos) é porque estes atores estão, um a um, inscrevendo-se em algo que os antecede (e que é a poética da atuação). O fato de usarem material que os absorve e que implica a apropriação de algo valioso, ainda assim, isto não impede de cada qual ser singular. Ainda assim Lee J. Cobb é um e também De Niro.

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