quarta-feira, 29 de abril de 2015

Marcelo Laffitte


Cineasta. Dirigiu curtas premiados, como ‘Vox Populi’ (melhor filme no Festival Internacional de Santiago do Chile), antes de começar a dirigir seus documentários. Em 2002, foi presidente da ABD&C/RJ e, entre 2003 e 2005, da ABD.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Um bom projeto, um bom amigo ou um bom cachê. Se as três condições estiverem juntas, melhor (risos), mas uma delas já basta para mobilizar meus neurônios. Brincadeiras à parte, eu fui um curta-metragista muito ativo entre 1996 e 2006, período em que realizei 4 curtas em 35mm: Vox Populi, Banquete, Ópera Curta e Fúria - todos para cinema, é importante frisar. E também fui dirigente da Associação Brasileira de Documentaristas, entidade que representa e luta pelos interesses dos curta-metragistas do Brasil inteiro.  Porém, como convidado, somente participei da realização de dois curtas de amigos: primeiro como produtor de “Nevasca Tropical”, de Bruno Vianna, e depois como assistente de direção de “Eu Sou Assim”, de Luiz Guimarães de Castro. Porém, depois que rodei meu longa, o “Elvis & Madona”, meio que pendurei as chuteiras para os curtas.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Guardadas as proporções de orçamentos e tempo de filmagem, meus curtas deram tanto trabalho quanto o longa, e é assim mesmo que eu acho que deva ser. Quando você faz uma obra cinematográfica para ser vista por uma plateia de centenas de pessoas numa sala escura e em silêncio, você precisa de um acabamento de imagem e de som de primeira qualidade, e isto leva muito tempo ou muito dinheiro. Produzir com dinheiro é simples: você contrata a equipe e executa o serviço, mas como nunca se tem dinheiro bastante para um curta, um realizador que almeja a excelência precisa contar com a ajuda de profissionais e empresas de forma graciosa, trabalhando nos tempos livres. As filmagens devem ser rápidas e objetivas, nada de ficar viajando na maionese para não desperdiçar o precioso de tempo de todos. É melhor economizar a criatividade para a montagem, edição de som e escolha das músicas.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Pelo simples fato de não haver um mercado formado. E não é só no Brasil, não: é no mundo todo.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Bastaria fazer cumprir a Lei do Curta, que está no Artigo 13 da Lei Federal 6.281, de 9 de Dezembro de 1975. Pela lei, o filme estrangeiro de longa-metragem deve ser precedido de curta-metragem brasileiro. A lei funcionou aos trancos e barrancos por alguns anos, mas teve a sua versão perfeita a partir de 1987, criando uma fase chamada de “A Primavera do Curta”, e revelou jovens cineastas como Beto Brant, Walter Salles, Jorge Furtado, Cláudio Assis, Lírio Ferreira, entre outros. Mas então elle, o Collor, chegou e arrasou nosso cinema extinguindo de uma canetada só os mecanismos de controle e gestão, que eram a Embrafilme e o Concine. Mas ele não conseguiu extinguir a lei, que continua lá deitada em berço esplêndido. A lei só precisa de nova regulamentação que definirá critérios de duração dos filmes, números de sessões, escolhas dos programas, remuneração dos filmes, etc. Isto seria o paraíso para a cultura brasileira, mas só vai ter chance de acontecer se a ABD voltar a ser uma entidade combativa e independente dos governos.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Mais ou menos. O curta só tem compromisso com a arte, que por sua vez deve sempre ser repensada e reinventada. Mas isto não quer dizer que cada membro da equipe pode fazer o que der na telha. O curta é sempre um filme de autor: é ele quem manda e não tem conversa. É ditadura mesmo. Se o fotógrafo quiser ousar nos enquadramentos ou nas cores, deve ter a “permissão” do diretor; o mesmo vale para o diretor de arte e figurino, os atores, o montador, o editor de som e o músico. Esses são o cérebro de um filme, mas a alma é sempre o diretor.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Eu não usaria a figura de um trampolim, mas sim de uma escola, ou seja, um espaço para aprender a fazer uma produção, a lidar com equipes, a dominar os tempos de cada etapa e, principalmente, entender a relação entre o espectador e a tela do cinema. Quem usa o curta-metragem apenas como trampolim, tipo Marcio Garcia, acaba quase sempre se dando mal.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Ah, se eu soubesse a resposta para esta pergunta... Posso lhe dar a receita de prato que inventei, o Fricassé de Jabá com Girimum, mas não há receita de como vencer no audiovisual brasileiro. Aliás, o que é vencer? “Elvis e Madona” participou de mais de 50 festivais no mundo todo (exceto a África), ganhou mais de 30 prêmios, teve as melhores críticas (exceto a do Diogo Mainardi, da Veja) e fez menos que 20 mil espectadores, dos quais eu não recebi um centavo sequer. Enquanto isso, filmes medíocres como “Muita Calma Nessa Hora” e “Aí, Comeu?” fazem milhões. Então, qual é a receita?

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim, tenho uma ideia na cabeça de fazer um filme que se passa na construção de um edifício. Infelizmente, uma câmera na mão não basta para realiza-lo.

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