segunda-feira, 25 de maio de 2015

Danyella Proença


Cineasta. É de sua autoria o curta-metragem “Braxília”, que arrebatou, na 43ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, os troféus Candango de melhor roteiro, júri popular e prêmio especial do júri.

Qual a importância histórica do curta-metragem na filmografia nacional?
O curta-metragem é um formato extremamente importante. Muitos cineastas começam com o curta-metragem, por ser um espaço muito bom para exercitar a arte de contar uma história de forma sintética e eficiente. O curta tem conquistado seu espaço próprio, vem deixando de ser uma arte menor dentro do cinema. Há menos preconceito e cada vez mais festivais de qualidade voltados exclusivamente para curtas, dispostos a exibir e a debater questões de linguagem, estética, produção, distribuição etc. O curta está nos festivais, nas escolas de cinema, na internet, nos cineclubes. Acho que vem deixando de ser uma arte de cinéfilo para cinéfilo e conquistando um público mais amplo.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Em primeiro lugar, o desejo de contar aquela história. Acreditar na história. Depois vem a afinidade artística com a equipe envolvida. Como diz o Luiz Fernando Carvalho (diretor cuja obra estudei no meu mestrado em Imagem e Som): precisamos encontrar nossa família espiritual na arte. Quando encontramos, tudo flui melhor. Também me motiva poder explorar as fronteiras do curta-metragem, as fronteiras entre as "caixinhas" do audiovisual (entre ficção e documentário especialmente) num tempo mais reduzido.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Minha primeira experiência foi numa oficina de cinema ministrada por um ex-aluno da Universidade de Brasília, chamado Roberto Ballerini. Eu estava no início do curso de Jornalismo, mas já era uma "xereta" no curso de Cinema - vivia me matriculando nas disciplinas de lá. Aí descobri essa oficina, que era à noite. Ia de ônibus todos os dias, voltava tarde para casa, mas feliz da vida. Foi lá, com o grupo, que fizemos nossos primeiros curtas. Mais um exercício mesmo, como forma de compreender as etapas de produção. Todo mundo fez de tudo, passamos por diversas áreas - do roteiro ao som direto. E o interessante é essa doação, a generosidade de todos trabalharmos no filme dos outros, nos revezando nas funções, percebendo a importância de cada uma delas.

Depois disso, trabalhei como assistente de produção num curta chamado Lauro Davidson, da Marcela Tamm. Ah, nesse intervalo eu escrevi um projeto de documentário sobre o poeta Nicolas Behr, que nasceu no Mato Grosso mas se mudou ainda adolescente para Brasília, e que escreveu bastante sobre a cidade. Inscrevi o roteiro num edital da Secretaria de Cultura do DF e fui contemplada na categoria de diretores estreantes. Como a Marcela Tamm sabia disso, me convidou para trabalhar no filme dela - eu ficava na produção, mas sempre aproveitava para "colar" na diretora e ver como ela trabalhava. Foi um ótimo estágio.

Em 2009 eu filmei o meu primeiro curta como diretora - o documentário "Braxília", sobre o olhar do poeta Nicolas Behr diante de Brasília. Estreamos em 2010 no Festival de Brasília, onde ganhamos os prêmios de melhor curta pelo juri popular, melhor roteiro e um prêmio especial do juri. Desde então temos circulado pelos principais festivais do Brasil e tivemos a honra de sermos selecionados para festivais fora do país também, incluindo o Zebra Poetry Film Festival, em Berlim, que está entre os principais festivais do mundo voltados para o diálogo entre cinema e poesia. Essa é uma grande honra para mim: poder levar a obra do Nicolas Behr a cada vez mais pessoas : )

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acho que, infelizmente, os curtas acabam ficando mais restritos ao circuito de festivais e mostras. Em geral, a atenção da mídia vem por tabela, quando da coberta desses eventos. Acho que falta conquistar um espaço para o curta além desse circuito. Uma alternativa excelente seria que o curta voltasse a ser exibido necessariamente antes de um longa, nas salas de cinema. É uma maneira de conquistarmos esse espaço das salas comerciais, já que sobra tão pouco para o cinema nacional com as "cotas" dos grandes blockbusters que ocupam a maioria das salas. é uma maneira também de chegarmos a um público novo, que não necessariamente frequenta os festivais, mas que poder ser surpreendido por uma bela história curta.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acho que respondi em parte na questão anterior: colocar um curta antes dos longas nas salas de cinema, em vez da quantidade absurda de comerciais que vemos, seria uma saída muito eficaz. Outro canal interessante é a internet. E uma conquista muito importante mesmo que merece ser mencionada é a nova lei da TV por assinatura, que prevê a obrigação de conteúdo nacional e independente nos canais pagos. Isso gera emprego, renda, movimenta o mercado nacional, aumenta a pluralidade do que vemos na TV e permite um espaço muito bom não só para o curta-metragem, mas para séries e programas produzidos no país, com os temas que nos interessam, com a nossa realidade. Tem muita gente boa contando boas histórias - e eu desejo que essas histórias cheguem ao público!

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Não acredito num "grande campo de liberdade". Você faz a liberdade, independentemente do formato, de ser um curta, um longa, de ser vídeo, 35mm ou 16mm. Acho que vêm caindo por terra esses rótulos de que o 35mm é mainstrem, o 16mm é para filmes experimentais de escola etc. Talvez seja mais difícil experimentar quando se filma diretamente em película, pelos custos envolvidos. Mas há tantos exemplos de experimentação com película, penso agora no Norman McLaren desenhando direto sobre o material sensível...Confesso não ter tanta clareza para responder "sim" ou "não". Penso que o realizador faz a sua experimentação, qualquer que seja o suporte, se esse for o caminho da sua alma naquela projeto.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Não necessariamente. Tem curta-metragistas que se sentem totalmente satisfeitos contando histórias curtas, e é isso o que eles querem fazer como cineastas. Fazer um longa não é um upgrade necessariamente no sentido de linguagem. é um outro desafio, você tem que lidar com equipe maior, em geral orçamentos bem maiores, uma outra logística. Acredito que o longa tenha suas dores e delícias, assim como curta.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Sabe aquela máxima do "sou brasileiro e não desisto nunca"? Então. É por aí. Tem que trabalhar bastante, procurar referências, alimentar a alma com leituras, filmes, artes plásticas, poesia, um cheiro, uma imagem, uma sensação. Tudo vira material para criação. E é preciso ser muito persistente e acreditar nas nossas ideias. Porque a gente leva muito "não" até emplacar um projeto em editais. Não pode desistir de primeira. Avaliando a trajetória do meu curta, Braxília: nós ganhamos muitos prêmios, mais de 20, se não me engano. Mas há mais festivais em que você não ganha do que os que você ganha. E amanhã o sol nasce da mesma forma. O prêmio faz muito bem, claro, mas o que quero dizer é que amanhã a luta está aí de novo. E vamos que vamos. Sempre haverá espaço para as boas histórias!

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Já dirigi um documentário. Agora penso em me aventurar pela ficção. Aproveito para parabenizar o blog pelos 7 anos e desejar vida longa a esse espaço e ao curta-metragem! Que saibamos nos reinventar, sempre.

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