terça-feira, 5 de maio de 2015

Milla Caputte


Atriz. Protagonizou o espetáculo teatral ‘O Rouxinol e o Imperador

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O que me motiva a aceitar participar de um curta-metragem é em primeiro lugar acreditar no projeto, em seu potencial artístico. Como minha formação é de teatro de grupo, acho muito importante a abertura de diálogo entre todos os participantes, o comprometimento e a paixão pelo que está realizando.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Não tenho muita experiência em participar de curtas-metragens, apesar de admirar o crescimento desta arte. Realizei como diretora e performer um curta-metragem de vídeo-dança na minha formação de Licenciatura na Faculdade Angel Vianna e tenho um projeto de longa independente que comecei a filmar no ano passado. 

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acredito que não são apenas os curtas que não tem espaço em críticas e mídias em geral. Vejo muitos longas também não terem espaço. Edgard Navarro, por exemplo, um grande cineasta baiano, que admiro muito, passou cinco anos trabalhando em um longa-metragem "O Homem Que Não Dormia" que traz no papel título simplesmente, Luiz Paulino dos Santos, um dos precursores do Cinema Novo, que estava há vinte e cinco anos afastado do cinema. O trabalho é ousado, polêmico e de uma qualidade artística indiscutível. Ele teve patrocinadores, apoiadores mas a mídia não deu muita atenção. A mídia, em geral, só favorece uma minoria que corresponde aos valores de interesses político-capitalista. 

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Faço eco com Milton Nascimento na música que ele diz: "Todo artista tem que ir aonde o povo está". Acho que deveriam existir projetos, como existia no começo do cinema no Brasil, de levar os filmes para as praças públicas. Acabei de participar de uma Mostra de Cinema em Ayuruoca, onde isso aconteceu. Montaram um telão em praça pública e exibiram curtas e longas pra toda a comunidade. O SESC também tem um projeto assim, que visa levar o cinema para os interiores com exibições abertas às comunidades. Tive a oportunidade de fazer uma turnê pelo Brasil no ano passado, com um espetáculo teatral e fiquei impressionada com a quantidade de cidades que não tem nenhum cinema e contam com a iniciativa de alguns pequenos grupos de resistência cultural que fazem exibições em salas improvisadas. Acho que uma boa alternativa é tirar o foco dos grandes centros, que vivem saturados de informações e expandir a cultura cinematográfica para pessoas que não têm muito acesso ao cinema e que assistem o filme não para criticar, mas para experienciar novos olhares. 

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Acredito que o grande campo para a experimentação de um artista, seja de qual área for é sair da necessidade de ser aceito pelas grandes massas e se conectar com aquilo que deseja expressar. Raul Seixas, por exemplo, dizia: "Eu não canto respostas e sim a minha saída". Essa frase, para mim, resume qual é a motivação do verdadeiro artista que afirma a necessidade de expressar sua subjetividade, materializando seu sentir no mundo. O que vem depois, é consequência dessa expressão "verdadeira".

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
O curta-metragem é uma arte em si. Tem histórias que podem ser contadas em um curta e isso é tudo. E tem outras que se manifestam como um longa e não tem como serem contadas em um curta. Quando eu fiz o curta de vídeo-dança, oito minutos foi tudo que precisei para expressar o que eu queria. Quando comecei a fazer o longa, muitos me disseram que eu deveria fazer um curta, mas depois de tanto tempo de pesquisa vi que a história que quero mostrar não cabe nem em uma vida, então, tive que me aventurar em fazer um longa. Acho que o curta pode ser um bom exercício mas não acredito que ela seja, necessariamente, um trampolim para um longa.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Isso é uma pergunta difícil... primeiro temos que saber o que significa vencer!

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Costumo focar minha energia naquilo que me move no momento presente, então pode ser um curta, um longa, uma peça de teatro, teatro-dança, um show, etc. Acredito na sincronicidade das coisas e nos encontros, acredito que a matéria-prima é que nos diz em que ela deseja se transformar e o que faço é dialogar com essa matéria e dar o corpo que ela deseja ter. (Risos) Isso quer dizer que sim, tenho vontade de dirigir um curta se este estiver falando ao meu coração.