sábado, 7 de março de 2015

Daniela Biancardi


Dedica-se à pesquisa do Teatro Cômico e Gestual há 14 anos. Formada pelo Teatro-Escola Célia Helena, École de Theâtre Jacques Lecoq, em Paris, e Kiklos Scuola, na Itália. Em 2000, ingressa na École du Cirque Les Noctambules em Paris. Como produtora e curadora, destacam-se o Festival Internacional de Edimburgo na Escócia, e no Brasil, como curadora por dois anos do projeto Circo de Asfalto no Itaú Cultural. Atualmente sua pesquisa sobre o corpo cômico e a intervenção cênica se amplia e vem interagir aos recursos audiovisuais.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Como atriz poder atuar em produções de maior ou menor porte é sempre um significativo exercício. O que me faz aceitar é o fato de poder exercer na mais pura prática a minha profissão. Natural, que analiso antes o roteiro e toda equipe envolvida para me assegurar da qualidade e dimensão do projeto que estou me envolvendo.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Não são poucas. Porque também envolvem projetos de alunos da USP-cinema. Isto se deu há mais de 18 anos. Mas vale ressaltar o primeiro maior projeto de curta que atuei. Foi "Flores Ímpares", onde atuava com Grace Gianoukas, Rosi Campos, Roseli Papadopol. Direção de Sung Sfai. Eu ainda era estudante de teatro, meu professor me indicou ao diretor, e desde então, é só como trabalho em curtas, por indicação de uma produção a outra. Foi em 1995, eu tinha 17 anos, cheguei no set nervosíssima, até que todos foram me acolhendo muito bem, incluindo as atrizes. O filme teve ainda uma parte dublada em estúdio e fui aprendendo tudo com a equipe e o Sung. Foi uma experiência incrível, pois senti que estava envolvida com cinema, não me preocupei se era curta ou longa. Mas estava com gente séria de cinema. Uma sensação , talvez somente uma sensação, de que em curtas, temos até mais tempo para estudar e nos entender melhor como atores. Em longas as produções tendem a ser mais frenéticas. E sempre foi assim pelos curtas-metragens que já passei. As equipes são dedicadas, empenhadas, são grandes profissionais envolvidos. Aos poucos fui descobrindo que o diretor de fotografia, o assistente de câmera, ou o editor eram grandes profissionais, com gabarito de longas e até de fora do país. Mas eram apaixonados por cinema e participavam de curtas de baixo orçamento por pura paixão a arte do cinema e do curta. Fui percebendo que as produções de curta, quando preenchidas por profissionais deste gabarito, não perdiam em nada aos longas-metragens. E ainda percebíamos mais espaço pra investigar, errar, criar. Talvez o espaço do curta seja, de fato, o espaço de intensa investigação artística que o cinema pede. Dá-se mais tempo ao risco. Já outras produções de longa não permitem este tempo. Hoje o cinema tomou outra dimensão em relação aos primeiros que fiz parte, e quase não tínhamos produções de longas na época. A dinâmica de fazer filmes mudou muito. Hoje um diretor arrisca-se num curta ou média pra não se expor diretamente num longa e se seu filme roda bem em festivais, então vê-se preparado para longas.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Talvez pela mesma razão que muitos espetáculos de teatro que não são divulgados como deveriam? Talvez por não fazer do circuito comercial do entretenimento de Shopping Center? Será que o público em geral tem exata noção do que se trata um curta ou média-metragem? Como estas obras chegam a este público? Se o circuito de exibição é tão escasso? Fica-me a questão senão seria um fio de tensão de forças bem contrárias. Precisamos de um engate de interesse do público que pouco consome esta arte, como também daqueles que promovem e gerenciam projetos artísticos. Quantas mostras poderíamos ter? Hoje com a internet, que outros caminhos temos para exibir um curta e torná-lo visível ao mundo? Mas que também tenha a dignidade de uma produção de custo mais alto do que a arte do video de "you tube"? A mídia escrita e televisiva é extremamente parcial, o que propicia movimentos e tendências a partir de seu único ponto de vista, dependendo do estilo daquela revista ou jornal, ou até vínculos de marketing que os mesmos tem. Então dificulta-se ainda mais o caminho de visibilidade das menores produções. Mas intuo que a internet tenha quebrado esta relação engessada cada vez mais. O que não significa que tudo flui e caminha a favor. Pois ainda fica a incógnita paras as produções mais custosas e melhor elaboradas e que são essenciais a sobrevivência da arte do cinema. Fácil pegar uma câmera e fazer seu vídeo “bombar” na internet, mas como ficam as estruturas ao cinema feito por tantas mãos e de forma mais detalhada?

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Fazer cinema, é sem dúvida, um meio caro, mas os meios de produção do cinema tem que estar acessíveis a mais artistas e os curtas devem ser exibidos em mais espaços, sejam escolas, instituições culturais, festivais, aberturas de filmes do circuito comercial, etc. Se o público sabe do que se trata e pouco a poupo passa a consumir, mais curtas a serem produzidos e exibidos teríamos, porém como gerar este movimento? Muitos espaços onde o próprios artistas gerenciam e se autoproduzem criam seu próprio público. São nichos menores, mas conseguem alcançar uma frequência de produções, o que também poderíamos dar mais voz e luz a estes espaços de autocriação e exibição de seu próprio material. O que não significa que não tenhamos que ter mais salas de cinema e com uma programação mais diversificada para todo tipo de público e filme. Lembro-me de ter lido uma entrevista com Caca Diegues que dizia que o artista gera o filme, não caberia a ele ter que também se preocupar com as salas de cinema e forma de exibição, pois trata-se de um dever público, do estado e também privado de cuidar dos espaços e forma de exibição. Mas não é algo que sucede e o artista tem ainda que se preocupar e estrangular-se para conquistar espaço para exibição e sustento de sua própria obra. Curtas não deveriam ser vistos como bichos estranhos jamais. E hoje, com o advento desses vídeos-arte para internet, poderíamos criar consistentes caminhos de produção e exibição desses filmes que não fosse só pelo jeito improvisado e caseiro como os de internet que vão ao mundo todo. Isto é um dos caminhos, mas não soluciona e não responde pela maestria e toda arte de carpintaria de se fazer cinema.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Como eu disse anteriormente, entendo que sim. Mas como atores devemos estar sempre em pleno exercício de experimentação, também para uma longa de ação de ordem mais comercial, por exemplo. Mas natural, que olhar para um ator de longas mais comerciais e depois vê-lo, por vezes, num curta de menor porte, você percebe o outro lado deste ator, com mais vivacidade e estado poético e libertador. Sinto também que, hoje, as produções de longa viciam-se demais nos mesmos atores cerrando demais o caminho de outros. Sabemos que estes mesmos se tornam, muitas vezes, o cartão de visita daquele filme, mas temos um movimento de atores pra lá de eficientes em São Paulo, por exemplo, e que precisam se exercitar seja em longas, seja em curtas. Mais filmes, mais atores, mais arte ao público.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Foi por muito tempo. Nos anos 90 quando iniciei no teatro, era só o que eu ouvia. Primeiro faz-se um curta para depois fazer um longa. E o teatro é o espaço de treino. O teatro também mudou muito e hoje temos grandes atores sobrevivendo no teatro e de forma brilhante. Hoje, a relação para se fazer um longa é que você tem que estar muito bem conectado com bons agentes e fazer muito vídeo publicitário para atingir os contatos mais certeiros. Ser ator de vídeo trata-se de ser o famoso “rato” da publicidade, muito diferente do ator de teatro, que desenha sua carreira de outra forma. É comum muitos atores de teatro estarem empenhados em curtas, os diretores de casting sabem da delicadeza e diversidade do trabalho destes. Não temos escolas e sequer bons preparadores de elenco para vídeo e cinema. Os nossos atores de teatro cresceram muito e são eles que têm a uma formação mais consistente de ator. Curtas tornam-se , portanto, sempre bem vindos aos curriculum, e hoje também se tornaram obras "cult". Eu faço curtas por puro prazer e porque sinto as equipes mais acessíveis e disponíveis ao risco.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Os próprios artistas que se desdobram em mil para fazer permanecer vivo o movimento do audiovisual aqui. O artista ainda é o pilar para fortalecer o cinema no Brasil. Ele tem que seduzir o público com olhar viciado a produções de mero entretenimento, como também o poder do estado a investir em maiores editais e leis que favoreçam as nossas produções. Ou seja, até quando o artista deverá ser a única receita? Certamente ele é quem não pode desistir.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Já pensei sim. O que já faço hoje são curtas documentais com enfoque no trabalho que faço como atriz e palhaça. Mas já pensei em ensaiar uma parceria com algum diretor e experimentar um roteiro cômico a partir de minha vivência como comediante.

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