quinta-feira, 19 de março de 2015

Silvio Da-Rin


Cineasta. Diretor do curta-metragem Phoenix e do longa-metragem ‘Hércules 56. Em 1984, dirigiu o premiado curta-metragem ‘O Príncipe do Fogo’, sobre o criminoso Febrônio Índio do Brasil. Em 2007, foi nomeado Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, ocupando o cargo que era exercido por Orlando Senna.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Minha primeira aproximação prática com o cinema, ainda na adolescência, se deu por meio do cine clubismo. Em 1967, com 17 anos, fui eleito presidente da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro, que congregava 32 cineclubes da Guanabara, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A Federação funcionava na Cinemateca do MAM, o que me proporcionou acesso aos clássicos do cinema brasileiro e mundial. Em 1968, o movimento estudantil e, após o AI-5, a oposição armada à ditadura, me levou à militância política clandestina e duas prisões. Só retomei o cinema quando se aproximava a anistia e começava, lentamente, a avançar o processo de abertura política. Em 1977 foi finalmente regulamentado o artigo da Lei 6.281, que criava uma reserva de mercado para exibição de curtas brasileiros junto aos longas metragens estrangeiros, no circuito comercial. Caso não houvesse o sistemático boicote dos exibidores e distribuidores estrangeiros, esse dispositivo teria possibilitado aos curta metragistas uma atividade sustentável, pois a renda de um curta praticamente possibilitava a realização do próximo. Organizamos a Cooperativa dos Realizadores Cinematográficos Autônomos – Corcina, que chegou a reunir 52 diretores. Na Corcina, fui sucessivamente vice-presidente, secretário e presidente. A falência da “lei do curta” nos fez buscar alternativas. Conseguimos então implementar na Embrafilme, pela primeira vez, um sistema de concursos públicos trimestrais para seleção de projetos de produção de curtas. Foi uma conquista da Associação Brasileira de Documentaristas – ABD, que passei a presidir em outubro de 1983. Minha geração encarava o curta metragem como um meio privilegiado de expressão e intervenção pública: baixo custo, curta duração e contundência. Realizei 'Fênix' em 1989, 'Mutirão' em 1980 e 'Príncipe do fogo' em 1984. Eu era o único técnico de som da Corcina, o que me levou, em menos de três anos, a gravar som direto para mais de 40 filmes, entre curtas e médias.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Entre 1978 e 2005, gravei som direto para mais de cem curtas e médias. Produzi alguns, dirigidos por amigos próximos e por Sandra Werneck, minha companheira na época. Tínhamos uma câmera 16mm e um kit de captação de som, formado por Nagra e alguns microfones e acessórios. Toda minha formação profissional cinematográfica se deu nesse ambiente de produção independente, nos anos de abertura política no Brasil, quando os filmes eram marcados por empenho, voluntarismo e espírito militante, no sentido político e artístico.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Esse é um fenômeno mundial. A crítica cinematográfica especializou-se em longas metragens e entende que sua função é orientar o público a escolher o filme que vai assistir. Como o curta não dispõe de um circuito próprio, não existe crítica regular de curtas nos grandes meios de comunicação, somente nos blogs e revistas virtuais que surgiram na última década.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Sem dúvida, o formato permite uma liberdade de experimentação que não se pode encontrar em filmes de maior orçamento e equipes numerosas. O curta sempre foi o espaço por excelência da inovação e experimentação no cinema. Recentemente, com o surgimento dos equipamentos digitais de baixo custo e maior portabilidade, filmes com características experimentais têm sido feitos em longa metragem, o que é ótimo. A falta de um circuito regular acabou por transformar o curta em um formato quase amador.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Não necessariamente. Nos anos 1980, quando conquistamos um sistema de financiamento para o curta, muitos realizadores fizeram o que, na época, chamávamos de “curta portfólio”, ou seja, filmes para demonstrar a produtores a capacidade de realização de longas. Mas o curta é um formato em si próprio, muitos realizadores têm extensa filmografia que não inclui um único longa, somente curtas.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Se existisse receita, a atividade não seria tão fascinante. Objetos artísticos não resultam de fórmulas, mas de criação. Não há garantia para o sucesso, mesmo no caso de produções com ingredientes altamente comerciais. Alguns produtos da Globo Filmes demonstraram isso recentemente, atingindo público imensamente inferior às expectativas dos produtores.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Meus projetos atuais são todos documentários. Alguns de longa-metragem. Outros são séries para televisão.

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