domingo, 1 de fevereiro de 2015

Ana Maria Saad


Atriz. Presidente da ONG ‘Pensamentos Filmados’.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Antigamente, lá por 2006 até 2008, participava para adquirir experiência. Depois comecei a ser mais criteriosa. Hoje para participar de um curta-metragem tenho que ter uma motivação forte, mesmo porque estou muito envolvida com a ONG que fundei, Instituto Pensamentos Filmados, que produz audiovisual e requer muito tempo e energia. Fazer filme, mesmo que de dois minutos é um trabalhão, né!

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Eu fui fazer curtas para adquirir experiência em audiovisual e como atriz. Curtas e médias são ótimos treinos, a gente bota a mão na massa e aprende muito. Com o tempo percebi que fazer filme é algo muito trabalhoso, caro e que já tem tanto filme bom sendo feito, que para produzir algo a minha motivação deveria ser muito forte, e ela é. Eu uso o audiovisual para conscientizar as pessoas sobre assuntos delicados e urgentes, por isso que fundei a ONG Pensamentos Filmados, pra usar o cinema para falar de transtornos de humor, comportamento humano e medicina integrativa.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Até tem espaço dependendo do tema. Nosso curta-metragem, o filme “Vida”, que iniciou a ONG Pensamentos Filmados teve atenção da mídia, desde canais de TV como a GNT, SBT, Record até jornais como a Folha de SP. Mas é que se compararmos com outras produções audiovisuais, o espaço é pequeno mesmo. Acho que é algo cultural, não é do nosso costume e tradição assistir e valorizar curtas, então a mídia em geral nem se interessa muito pela modalidade.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Como tudo na nossa sociedade: marketing. Mas marketing é caro, então se o retorno financeiro de um curta ou média valesse a pena, com certeza se investiria em marketing para promove-los e consequentemente eles atingiriam um público cada vez maior.

Hoje o Youtube! e Vimeo ajudam muito na "distribuição" dos curtas e médias, mas como já disse, é algo cultural, a gente não é acostumado a assistir curtas e médias. Tem canais como o Canal Brasil que passa filmes de menor duração, tem os festivais e mostras, mas mesmo assim eles atingem um público restrito, porque é algo cultural mesmo. Tem gente que não é da área de cinema que nem sabe que existem filmes com menos de uma hora de duração!

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Curtas são mais acessíveis de se realizar, demandam menos tempo e são bem mais baratos do que um média ou longa. Então se o cara quer experimentar, o curta é ótimo pra isso, mas aí eu sempre caio naquela questão que todos os profissionais, de todas as áreas, deveriam se perguntar: "para que estou fazendo isso?".

O mundo já está abarrotado de ótimos profissionais e artistas talentosos. O mundo precisa urgente é de bons seres humanos, de pessoas que experimentem a consciência social! Então o cara deveria se perguntar: o que me leva a ser um ator, produtor, diretor em primeiro lugar? Eu tenho algo a dizer? A passar? Para que vou fazer esse projeto? Qual será meu impacto na sociedade?

A gente mesmo do Pensamentos Filmados tá fazendo uma série de curtas que são experimentais, mas porque os filmes pediram isso. A gente não ta experimentando por experimentar, antes a gente tem algo que precisa ser dito e passado, então esbarramos na falta de verba, e as circunstâncias nos levaram a experimentação porque fazer um filme tecnicamente bom é muito caro, mesmo que seja um curta e meu sobrenome é Saad, mas infelizmente eu não pertenço ao núcleo rico, como o pessoal da Band ou da Maison Saad...

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
O curta ou média deveria ser um fim em si mesmo, se desembocar em um longa ótimo, mas essa não deveria ser a motivação inicial. Aliás tudo o que fazemos deveríamos fazer com a maior presença e dedicação sem pensar no resultado final, esse é um princípio do estado meditativo: estar presente no aqui agora!

Li uma entrevista recente com o Spielberg em que ele diz que em vários projetos dele, ele era o único realmente interessado em fazer o filme, que a maioria da equipe estava ali apenas por causa do salário. Achei isso uma pena, mas retrata bem o sonambulismo agudo em que vivemos. As pessoas estão com o corpo presente, mas os pensamentos em outro lugar, reféns da própria mente que fica projetando, sonhando, distorcendo a realidade ao invés de aproveitar o presente! E esse sonambulismo, essa falta de uma consciência elevada faz com que as pessoas se causem mal. Vi isso de perto em um grupo que fez um longa.

O longa era apenas um trampolim para ganhar prêmios, de preferência o Oscar, para assim ser um trampolim para ir trabalhar com o George Clonney! Para assim ser um trampolim para um glamour que não existe! Pra esse tipo de pessoa imatura, tudo é trampolim para alguma coisa e elas acabam passando por cima de outras pessoas, porque no sonambulismo agudo em que se encontram quando esbarram em alguém nem percebem...

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Eu ainda sou uma looser no audiovisual, procurei a receita e por isso posso dizer: não existe receita, cada um tem seu caminho de vida... Teve uma época que li bastante sobre os diretores brasileiros consagrados e em todos eles identifiquei algo em comum: muito estudo, persistência, paixão e muito trabalho.

Então achei: "que beleza! Eu também sou esforçada, estudiosa, trabalhadora, persistente!" mas ainda não consegui engrenar a Pensamentos Filmados...

Fracassei bonito na captação de recursos do Projeto que a gente teve aprovado na Lei Rouanet, não consegui verba nem para fazer o documentário de extrema importância para a sociedade, que a gente ta fazendo mais uma vez na guerrilha e provavelmente vamos tentar crowdfunding. Descobri que 75% dos projetos aprovados na Lei Rouanet não são captados, porque essa Lei é para beneficiar as empresas e não os artistas, ainda mais se eles forem "Zé Ninguém", como no meu caso.

Então quem pode falar de sucesso no audiovisual brasileiro é o pessoal da LoIo Filmes, da O2, da Conspiração, da Zazen, da Buriti, o Selton Mello, o pessoal do "Porta dos Fundos"... eu ainda sou só uma ET usando o audiovisual para "destabulizar" assuntos tabus, tentando ajudar o máximo de pessoas que eu posso com o mínimo de recursos que a gente tem.

Mas batalhamos incansavelmente, quem sabe um dia poderemos ocupar nosso lugarzinho ao sol no audiovisual brasileiro? Quem sabe?

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Curta, série, longa! Já temos muitos projetos que estão em formato de Plano de Produção, com orçamento e tudo certinho. O que nos falta? Verba e parceria para coproduções.

Vamos cruzar os dedinhos pra que a gente consiga, porque muita gente será beneficiada com o conteúdo desses filmes.

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