sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Bruno Ranzani


Ator. Atuou no filme ‘Circular’.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Quando estava na faculdade eu aceitava qualquer proposta, pois tinha um desejo muito forte em participar de produções e de conhecer pessoas. Agora eu peso e seleciono melhor. Tem quatro pontos pelos quais me guio: disponibilidade de horários, interesse no projeto, equipe integrante e claro cachê. Quanto a interesse no projeto me pontuo pela complexidade das personagens e de suas relações, o universo dramático chama a minha atenção.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Os projetos que participei se dividem entre estudantis (realizados com grupos de estudantes de cinema da Faculdade de artes do Paraná) e Casos e Causos (Produções da RPC TV e Parceiros como GP7 cinema). Os projetos estudantis são aprendizados para todos. Ao mesmo tempo que estamos interpretando o diretor busca sua estética e sua forma de liderar, a equipe experimenta os equipamentos. Os resultados são diversos, mas geralmente são projetos divertidos de se participar. Já em produções que envolvem remuneração e equipe experiente encontrei pessoas que sabiam o que queriam e tinham um curto espaço de tempo para realizar o projeto. Resultando em formatos que o público está mais acostumado a ver.

Como ator sigo um conselho que me foi dado "não se apaixone". Esse conselho me foi dado quando eu achava tudo que eu fazia era muito importante, ficava estonteado com uma cena realizada. Enfim, para todos os meus trabalhos em cinema e TV esse conselho me foi útil, pois na verdade a direção e a edição é quem selecionam tudo, não é bom se apegar a algo que "puxa podia ter entrado aquela cena", independente do resultado da cena, é importante perceber o que o trabalho quer comunicar no todo e se a cena colabora para isso.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não me vejo como a melhor pessoa para responder isso. No entanto olhando para o cenário de produções artísticas eu não resumiria a falta de visibilidade aos curtas, mas expandiria a questão a todas as expressões artísticas. Não vejo os jornais darem foco para novos músicos, nem a novos artistas visuais, muito menos a novos cineastas.

Sempre tem a questão do público alvo. Será que o trabalho que pretende ser exposto, ou divulgado por um jornal vai de encontro com os interesses do público alvo desse mesmo jornal? Alguns aqui diriam que o jornal é pra todos e que não precisaria selecionar a informação, mas por outro lado o público alvo da Tribuna, da Gazeta do Povo e da Folha de São Paulo são diferentes.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Esse formato tem um alto potencial e acho que na verdade cada vez terá mais. As pessoas estão cada vez com menos tempo. No entanto, chegam em casa cansadas e querem se divertir, relaxar. Enfim a criação de canais temáticos poderia funcionar. Como um canal no youtube ou blog de curtas de comédia, outro de drama enfim vários gêneros. Uma iniciativa que acho bastante interessante é segue um pouco essa linha é o porta curtas (http://portacurtas.org.br/). Mas mesmo assim ainda é pouco divulgado poucas pessoas com que eu converso sabem da existência desse site.

Acho que se de alguma forma se os produtores conseguissem espaço para veiculação na TV seria possível atrair mais interessados para os curtas. Mas para criar a cultura de ver curtas seria necessário um espaço e horário fixo, algo regular.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Certamente. Acho que justamente por isso é complexo popularizar este formato. Quando algo é original de mais deixa de se comunicar. É como no filme Quem somos nós que o índio vê a flutuação na água, mas não vê o caravela. Era algo tão diferente que se fez incompreensível a ele durante muito tempo. Popularizar o curta é envolve ceder a padrões estéticos estabelecidos ao melodrama por exemplo. Grande parte do público não se interessa por arte experimental. Particularmente acredito que um produto artístico bem sucedido pode ser amado ou odiado, só não pode ser ignorado. Existe uma alquimia necessária entre a originalidade e o estabelecido para que algo possa ser assimilado. Caso contrário estará se fazendo arte somente para estudantes de arte e artistas. 

É importante lembrar que estamos em um país que ostenta o título de ser o melhor produtor em telenovelas, Precisamos levar em consideração que nosso público está acostumado com a estrutura dramática, com o melodrama. Mesmo que as vanguardas estejam discutindo o pós-dramático e a performance. Uma performance em si é algo incompreensível, quase inconcebível para o público leigo. No entanto se a colocamos dentro de uma estrutura dramática facilitamos para o público. É uma forma didática de pensar, mas como a maior parte das questões aqui refletem a preocupação em popularizar os curtas-metragens penso que a formação de plateia acaba sendo necessária.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Acho essa uma questão relativa. Depende do ponto de vista. Se falamos de um diretor, produtor ou roteirista certamente sim. Já se falamos de um ator ou atriz e ainda não é conhecido(a) por pessoas que estão fazendo longas talvez. No entanto, parte do mercado está interessada num misto de ficção e realidade. Uma equipe preparada com todo estudo e preceitos estéticos seleciona pessoas sem qualquer contato prévio com interpretação para realizar trabalhos junto com atores que se dedicaram a formar sua carreira nessa área. A Rede globo por exemplo, tem várias produções onde isso aconteceu. Uma das últimas foi ‘Suburbia’, onde duas das protagonistas foram selecionadas na comunidade. É um misto de reality show e ficção. O próprio filme que eu participei, Circular, aderiu a esse movimento. Não foi o meu caso, que me diferencio muito do papel que desempenhei para esse filme, mas houveram casos de pessoas que vivem ou viveram ali uma realidade bem próxima a de seus personagens e também de pessoas sem experiência prévia em atuação.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não creio que exista uma receita. Nem acho que posso dizer que venci. Eu tenho alguma experiência. Participei de alguns curtas, alguns médias-metragens e um longa metragem, mas ainda tenho muita estrada pela frente até poder dizer que venci e prosperei com o audiovisual. Acho que contatos e dedicação são dois guias muito importantes. Pro ator e para atriz é importante saber se soltar, conseguir se liberar de amarras e mergulhar no projeto. Essa é uma postura que exige coragem e pode ser um caminho com passagem só de ida, pois cada personagem abre um horizonte de possibilidades e as vezes trocamos a casca. Nem sempre, mas a vezes sim.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
No futuro quem sabe. Tenho alguns projetos germinando. Venho escrevendo algumas coisas novas e já tenho outras na gaveta.

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