sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Coluna da Marta Paret


Maria Della Costa & Odela Lara

Muito já se falou sobre a morte e mesmo assim preferimos não tocar no assunto. Compreensível! Na cultura ocidental, a morte traz dor demais. Também muito já se falou sobre isso... Mas, se estamos vivos, não adianta, não temos como ignorar o assunto.

A saudade é uma das consequências direta da partida. Quem fica carrega consigo as lembranças daquele que se foi. E quem partiu ficará sempre vivo, enquanto o vivo estiver presente com as suas lembranças.

Recentemente morreram duas atrizes ícones: Maria Della Costa e Odete Lara. Maria Della Costa partiu primeiro, no dia 24 de janeiro, aos 89 anos. Já Odela Lara faleceu no dia 4 de fevereiro, aos 85 anos. 

O teatro brasileiro não seria o mesmo sem Maria Della Costa, que ao lado de Sandro Polloni, seu segundo marido, fundou o Teatro Popular de Arte, em 1948, que mais tarde daria origem à companhia Maria Della Costa. Em 1954, inauguraram o teatro, que levaria o nome da atriz, na capita paulista. 

Neste espaço a companhia montou clássicos de Brechet, Feydeau, Tennessee Williams, Sartre, Nelson Rodrigues, Arthur Miller e muitos outros, alguns destes dramaturgos eram até então inéditos no país.

Odete Lara fez mais de 40 filmes, lançou discos - um deles ao lado de Vinicius de Moraes - e atuou em peças teatrais, entre outras coisas. Musa do Cinema Novo e da Bossa Nova, trabalhou em filmes importantes como "Bonitinha, mas ordinária", "Boca de ouro", "Vai trabalhar, vagabundo", e "O dragão da maldade contra o santo guerreiro".

Infelizmente, não conheci pessoalmente nenhuma das duas, mas guardo histórias que denunciam o carinho e a admiração que sinto  por elas. 

Em 2004 e 2005, fazia uma peça com Perry Salles e ele sempre, ao final da sessão, na hora dos agradecimentos, saudava sua ex-mulher e estrela do espetáculo, Vera Fisher, com "bravo, bravíssimo" e palmas entusiasmadas. 

Muitas vezes estranhava tanto calor neste momento vindo da própria equipe. Não que Vera não merecesse atos entusiasmados, claro que sim, mas para mim o natural era que esta expressão partisse do público. 

Mas Perry, que trabalhou na companhia de Maria Della Costa, contou que Sandro Polloni, seu marido e parceiro profissional, ao final de todas as apresentações, do fundo do teatro, no escuro ainda, saudava a estrela da companhia com "bravo, bravíssimo, Maria" e a plateia assim era contagiada, estendendo o tempo e a intensidade das palmas. 

Perry aprendeu com Sandro que produtor não para de trabalhar nunca, nem na hora dos agradecimentos ele descansa, e que por trás de uma estrela tem sempre um produtor.

Já em 2011, no ateliê de Daniel Senise, eu ensaiava o espetáculo "Mão na luva" e estudava tudo que estava ao meu alcance sobre o autor da obra, o dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. Nestas minhas pesquisas, soube que a linda peça, nunca encenada com ele em vida, havia sido escrita sob forte influência da história de amor vivida por ele e por Odete Lara. Quem conhece o texto consegue mensurar a enorme paixão que viveram. 

Por conta disso tentei contato com ela, mas, por circunstâncias do destino, não consegui. No auge do sucesso, ela se converteu ao budismo e passou a ter uma vida reclusa.

Enquanto eu viver, vou carregar comigo estas lembranças que não estão nos livros e nem nos documentos. E assim é a vida... Quem parte fica vivo na memória de quem fica, independentemente dos registros oficiais.  

Marta Paret, é atriz. 

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