domingo, 1 de fevereiro de 2015

Tatiana Monassa

Crítica de cinema, editou a revista eletrônica Contracampo de 2007 a 2011 e colabora com o jornal O Globo.

Qual é a importância histórica do curta na filmografia nacional?
Excetuando-se as primeiras décadas de produção cinematográfica, em que o curta era basicamente a norma, podemos dizer que, como em todas as filmografias sem uma indústria consolidada, a filmografia brasileira tem no formato do curta-metragem um aliado para o florescimento de talentos. É na realização de pequenos filmes (de custos e peso de produção enormemente reduzidos em relação ao longa), que pode-se iniciar uma carreira e ganhar a visibilidade necessária para seguir adiante. E digamos que a lei da obrigatoriedade de exibição de um curta-metragem antes das sessões comerciais de longa-metragem constituía uma preocupação com essa produção, visando a estimulá-la. Ainda que os bons termos do programa não tenham sido mantidos por muito tempo, ele contribuiu em um determinado momento à visibilidade (e, portanto, produção) do formato.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
O curta-metragem não sendo historicamente um formato explorável comercialmente, ele não é contemplado por estratégias de divulgação em geral – uma das razões profundas da atenção midiática às obras. Quando exibidos – no quadro de um festival, por exemplo – o próprio modelo de exibição consagrado do curta (uma sessão com vários curtas) dificulta seu reconhecimento como obra única, merecedora de atenção particular.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acredito que dentro do quadro atual, fora o espaço dos festivais, a única forma de dar maior visibilidade a um curta é investindo em formatos de exibição alternativos, como sessões em centros culturais com debates, ou difusão pela internet, ou ainda exibições em eventos culturais multidisciplinares.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Se o profissional assim o desejar, acredito que o curta possa cumprir esse papel melhor do que um longa, que acarreta mais compromissos. Mas a julgar pelos principais programas de financiamento brasileiros, o projeto de um curta ou de um longa parecer encontrar as mesmas barreiras – embora em termos de difusão posterior, certamente um curta mais ousado tem mais chances de ser prestigiado do que um longa de mesma ambição, que dificilmente encontraria seu espaço nas salas comerciais.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Embora na prática ele tenda a ser – pelos motivos citados de custo e peso de produção inferiores –, no fundo trata-se de dois formatos distintos, cada qual com as suas especificidades. Quando os dois formatos se embaralham no nível da concepção do filme, este tende a não “funcionar” de saída. Ainda assim, podemos dizer que para quem deseja realizar unicamente longas-metragens, o curta constitui um bom exercício da prática cinematográfica.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Acredito que não haja uma “receita”, embora a formação de “comunidades de afinidades” pareça ter um papel preponderante para firmar-se no cenário existente.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Dirigi um curta de fim de curso na UFF, chamado adrift (2008). Gostaria de realizar outros filmes, mas considero o formato do curta bastante difícil, pois tendo a pensar em imagens e histórias com tempos alongados.

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