sábado, 24 de janeiro de 2015

Marcelo Miranda


Formado em Jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mantém textos em  sites como o Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com.br) e Cinequanon (www.cinequanon.art.br) e nas revistas independentes Paisà, Teorema, Pipoca Moderna e Taturana.

Qual é a importância histórica do curta na filmografia nacional?
O curta-metragem sempre foi mola-mestre no cinema mundial, antes mesmo de ganhar o rótulo de "curta-metragem" (afinal, numa época em que os filmes eram todos curtos, só assim eles podiam existir). No Brasil não foi diferente, e muito da experimentação de linguagem e estilo que tanto marca nossa produção veio no curta. Para ficar em apenas um exemplo, o movimento mais estudado e reverenciado no país (o Cinema Novo) teve como base trabalhos curtos como "Arraial do Cabo" e "Aruanda". O curta, ainda hoje, permanece como um autêntico oásis de criatividade e ousadia e há muito deixou de ser considerado "ensaio" para longa-metragem. Ele existe e tem força autonomamente.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Por um motivo, a meu ver, muito simples: o curta não tem existência como produto comercial. Numa época como a de hoje, em que as pautas culturais são primordialmente a partir daquilo que repercute, que rende, que "dá o que falar", o curta-metragem apenas ganha atenção e importância se se tornar algum tipo de fenômeno - como aconteceu recentemente com "Recife Frio", de Kleber Mendonça. Mas isso não é apenas do curta. Filmes independentes em geral, longas, só ganham espaço quando estreiam (se estrearem) ou se forem incensados de alguma forma nos espaços restritos onde foram exibidos.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acho, na verdade, que o curta-metragem brasileiro, hoje, tem bem mais exibições que no passado. Há o Canal Brasil e o Curta!, na TV, há projetos como a Programadora Brasil, há mais de 200 festivais pelo país que sempre incluem curtas (fora aqueles exclusivamente de curtas), há o Porta Curtas e canais como o Vimeo, na web. É claro que ainda não é suficiente para a importância do formato, mas já existe uma visibilidade muito maior do que há pouco tempo.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Não gosto de fechar a ideia de liberdade apenas no curta-metragem. Creio que a arte, como um todo, é um grande campo de liberdade para experimentação. O curta, por sua natureza (duração, orçamento necessário, equipe, etc.), tende a ter mais riscos e apostas, porque o prejuízo (financeiro e de visibilidade) é menor. Mas aí é com cada criador, que deve sempre escolher qual o melhor formato e linguagem para desenvolver suas ideias.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Como comentei acima, não acredito nisso e nem acho que o curta seja pensado assim. Na verdade, é claro que certos realizadores vão tentar desenvolver ideias pelo curta com intuito de chegar ao longa-metragem, mas isso não é necessariamente uma regra e nem significa que vá funcionar sempre. É apenas um recurso artístico disponível - e, claro, absolutamente legítimo.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não sei o que significa "vencer no audiovisual brasileiro" e não penso o cinema (a arte) como uma questão de "vencer" ou de competição.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Nunca foi um plano e continua não sendo. Me interessa realmente refletir, pensar, absorver o cinema. A feitura, a criação, não é algo muito forte em mim, por diversos motivos. Não que não vá fazer nunca, mas realmente não é uma meta.

Nenhum comentário: