sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Thais Medeiros e Pedro Jorge


Thais é atriz, e uma das integrantes e fundadoras da Cia. Delas, atuando nos espetáculos "A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília", "Histórias por Telefone", entre outros. Pedro Jorge é cineasta, dirigiu o curta-metragem "A Navalha do Avô".

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Pedro: Normalmente analiso o roteiro e as condições de produção. Muitas vezes um roteiro não tão interessante, mas com boas condições de realização pode ser um grande desafio e o contrário também, um roteiro incrível com condições de produção mais restritas. Levo em conta também a equipe e meu interesse em trabalhar com aquelas pessoas.

Thais: O roteiro, um personagem interessante, o comprometimento da equipe e as condições para realizar o trabalho. Atuei em poucos curtas-metragens e em todos contou muito o fato de eu conhecer e gostar das pessoas envolvidas, o que me fez ter vontade de "comprar" a ideia e querer contribuir para o filme.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Pedro: Comecei no curso de cinema, nos curtas da faculdade e acho que é uma ótima experiência para todo estudante, porque o set não é profissional e estão todos aprendendo, além de nesses pequenos filmes, podermos descobrir e conhecer parceiros pro futuro. Eu amo curta, comparo com o escritor que escreve contos. Acho o formato desafiador, porque exige muito do realizador, ele tem pouco tempo para prender o espectador, isso é muito legal do ponto de vista criativo. Já realizei alguns como diretor, diversos como montador e na faculdade em várias funções como forma de aprendizado que me enriqueceram muito quando tive a oportunidade de dirigir.

Thais: Como disse anteriormente, não atuei em muitos filmes e quase todos foram no contexto universitário. Em muitos deles me diverti muito com a equipe envolvida, mas em geral, fiquei bem "perdida" como atriz, porque acho que esses filmes são produzidos como um grande exercício para os alunos, e não sinto que a prioridade nesse caso seja - ou deva ser - a direção de atores, assim, encarei como um grande exercício para mim também. Em 2010 tive a experiência de atuar em um TCC da ECA-USP e o diretor fez bastante questão de um trabalho prévio intenso com os atores. Foi uma experiência muito interessante. Construímos os personagens e suas relações ao longo dos ensaios e eu aprendi muito. Acho que os processos que permitem essa investigação e conseguem ter esse tempo para preparação e diálogo entre os artistas envolvidos tendem a resultar mais interessantes e amadurecidos.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Pedro: Simples, o curta-metragem é na grande maioria das vezes um local de experimentação dos realizadores. A grande mídia acaba ignorando, porque o curta, diferentemente do longa, não gera receita financeira e isso acaba sendo algo pouco interessante comercialmente. O espaço dos curtas-metragens que existe e é muito bem resolvido são os festivais que estão espalhados pelo Brasil e por outros países e que difundem muito bem o formato além de alguns canais de TV que inserem curtas na sua programação como o Canal Brasil, Sesctv e o Curta!; além claro da internet, em bons portais como o Porta Curtas (que tem um acervo magnífico) e as páginas dos realizadores no Youtube e no Vimeo. 

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Pedro: Eles deveriam ser como era no fim dos anos 90 e começo de 2000: exibidos antes de longas. Era a lei do curta, que no meu caso foi uma boa experiência, porque foi assim que pude conhecer um formato que era desconhecido por mim até então. Lembro que fui ver alguns filmes americanos no cinema do shopping e passava curtas antes, era algo interessante pra mim. A questão é que a publicidade que dura em torno de 10 a 15 minutos, gera receita para o exibidor, o curta não, era uma lei de obrigatoriedade. E os trailers, são exigências das próprias distribuidoras, para angariar os espectadores para futuros lançamentos. Trailers são grandes peças audiovisuais pouco percebidas. De qualquer forma, achava essa lei interessante.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Pedro: Sim. O curta, por não ter a obrigatoriedade de gerar receita financeira, não prende o realizador a ter de seguir regras ou formas para a realização dos filmes. O curta também traz a liberdade de não se prender a gêneros, é mais democrático e um grande meio de experimentação com a construção da narrativa que muitas vezes é mais livre e instigante que no vídeo clipe e na vídeo-arte. 

Thais: Sim. Acho que a possibilidade de realizar um projeto mais concentrado, que pode ser realizado em um pequeno espaço de tempo, com menos custos, dá espaço para a criatividade, pesquisa de linguagem e ousadia e quando bem produzido e dirigido, permite uma maior verticalidade sobre a narrativa.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Pedro: Depende de cada realizador, antigamente isso era declarado, hoje já não sei mais. Eu confesso que meu interesse como realizador hoje é maior por curtas do que por longas, o longa é um negócio a maior parte das vezes, o curta tem menos peso nesse aspecto. Muitos realizadores usam a publicidade como trampolim ou séries de TV, é bem subjetivo isso. Mas o fato de você aprender certas questões pode-se dizer que sim, é um trampolim. 

Thais: Acho que para o ator pode ser um trampolim, mas como tudo na carreira, não tem regra. Penso que um trabalho bem feito tende a chamar outros. Acho legal as pessoas terem uma boa referência do seu trabalho e um curta-metragem bem feito pode representar isso.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Pedro: Acredito que é não ser especialista. Por exemplo, um sujeito que diz, "Sou apenas diretor", tem algo por trás que o sustenta, isso é bem comum na publicidade, que é um mercado que gera muito dinheiro, portanto viabiliza o sujeito apenas dirigir. Eu vivo como montador, coordenador de finalização, colorista e dirijo meus curtas, vídeo clipes de bandas de amigos, além de estar constantemente pensando e desenvolvendo projetos, ou seja, essa é a forma que eu encontrei de vencer no audiovisual. Acabei de rodar um curta com edital da prefeitura, para poder me dedicar 100% ao filme, tive de fazer algumas escolhas. O edital saiu em junho, mas o dinheiro só foi liberado em outubro, nesse tempo fiz um documentário pra TV5 da França como montador, depois emendei em um institucional para um artista plástico, como fotógrafo e colorista, juntei algum dinheiro nesse período. Isso era setembro, pintou uma boa oportunidade de ganhar mais um pouco fazendo uma série infantil para um canal a cabo. Apesar de naquele momento querer me dedicar ao filme, acabei aceitando e adiei mais um pouco o processo do filme, juntei mais um dinheiro e a partir de janeiro neguei todos os trabalhos que apareceram até eu terminar o filme, ou seja, tive de fazer um planejamento. Rodei o curta em abril, montei em maio e entreguei em junho, nesse período, tive de viver com o dinheiro que juntei pra viver no ano passado. A sorte é que a mesma série infantil renovou mais duas temporadas e após entregar o filme tive um novo trabalho.

Isso na verdade é pra dizer que temos que estar cavando trabalhos e descobrindo outros realizadores, porque na minha experiência, um dia sou diretor e no outro tenho de estar ajudando algum diretor com os projetos deles.

Thais: Ainda não tenho essa resposta. Vivo do dinheiro que ganho fazendo teatro e publicidade. Espero um dia poder responder a esta pergunta com propriedade.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Pedro: Rodei alguns curtas experimentais, o meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) foi um documentário, "A vermelha luz do bandido", sobre o cinema de Rogério Sganzerla e a sua realização me fez refletir muito sobre o processo do cinema. Viajei por diversos festivais no Brasil e no exterior com este filme, ganhei alguns prêmios e agora pode ser assistido em canais na internet como o Porta Curtas (http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_vermelha_luz_do_bandido) ou na minha página no Vimeo (http://vimeo.com/23337658). Estou lançando agora meu novo curta, "A Navalha do Avô" que é mais narrativo e escrevi em conjunto com a Francine Barbosa, uma grande parceira minha. Agora estou começando a mexer nas ideias que pararam no tempo, projetos antigos engavetados para desenvolver, espero ter novos filmes. Quero poder dirigir mais, esse é o meu desejo.

Thais: Não. Sou atriz e meu negócio são os personagens. Não descarto a possibilidade de trabalhar com roteiro ou produção, mas apenas para viabilizar meu lugar na frente das câmeras.

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