segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sylvia Prado


Atriz. Atuou nos curtas-metragens “O Retrato de Deus Quando Jovem”; “Pobres diabos no Paraíso”; “Trópico das Cabras”; "A Bordo"; entre outros.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O cinema me interessa como arte, assim como o teatro me interessa, são linguagens que me inspiram como artista. Pra mim não importa se é um curta, o um longa-metragem, mergulho com a mesma intensidade. Antes de mais nada, o que me atrai, é o fato de ser chamada, digo, que tenham pensado em mim para determinado papel. Depois disso vem o papel em si, o roteiro, a ação, que acredito esteja ali, a espera de uma intervenção humana. A soma de tudo, a química produzida pela equipe, tudo isso me instiga, me interessa, e me faz aceitar um convite pra filmar

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Fiz meu primeiro curta assim que entrei na escola de teatro: “O Retrato de Deus Quando Jovem”, o que pra mim foi uma surpresa, no dia do teste pra escola, uma pessoa chegou até mim e disse: - quer fazer um filme...?! ACEITEI! Fui dirigida por Fernando Coimbra, que hoje estreia seu primeiro longa: “O Lobo Atrás da Porta”. Meu segundo curta também foi dirigido por ele, “Pobres diabos no Paraíso”, e também o terceiro, “Trópico das Cabras”... Essas parcerias acontecem muito no cinema, quando a ator vira quase um alter ego do diretor. Ser dirigida pelo mesmo cineasta na sequência, tem um certo conforto na linguagem... mas paradoxalmente, a atuação é sempre uma nova descoberta, de personagem pra personagem, além disso,  a língua cinema é feita de  frases entrecortadas, uma poesia concretista sem sequência linear, o que para um ator de teatro é um desafio enorme. Fazer cinema, nunca é confortável pra um ator que vem do teatro. Acho que o Curta, amplia ainda mais essa sensação pelo curto tempo em que que é realizado. Depois desses curtas vieram mais três, um que fui chamada pra ser secretária do Peréio, e que até hoje não vi, “Pete Pode Tudo”,  de Anahi Borges, e acabo de fazer “Walking Bass”, de Caio Ferraz e Luis Romero. Enfim...minha vida nos curtas está só começando...

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não sei dizer exatamente por que os curtas não tem espaço no jornal, acho que passa pelo mesmo problema que os longas nacionais, que o teatro, que a cultura . A cultura não tem espaço no jornal. Por exemplo, você estreia uma peça, fica horas sentada conversando com a repórter, que está ali com aquela simpatia estampada, aquele ar de interesse. Quando abre a página de Cultura do Jornal, o assunto é o filme estrangeiro de não sei quem, ou pior, o anúncio colossal da marca X. A matéria sobre a peça esta perdida, "espremidinha na pagininha tal", sem nada do que foi dito, ou com tudo cortado, absolutamente sem sentido. O jornal está cada vez mais patético na sua dicotomia mercado/veículo de formador de opinião. A TV então... nem se fala, mil e um canais pra "descerebração"! Infelizmente a moeda corrente é o lucro, a notícia é notícia se gerar automaticamente mais mídia, mais Ibope, mais pontos de audiência, ela não é um parâmetro pra informação, pra criação, ela é uma moeda. Nesse sentido acho que as redes sociais, a tecnologia, a mídia ninja que cada um pratica diariamente, todo esse movimento que surge com muita força vai desmonopolizar isso.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acho que os curtas deveriam ser exibidos em todas as salas de cinema antes dos longas, ao invés dos trailers. Infelizmente esse espaço já virou capital também, você paga e anuncia qualquer coisa ali. Acho que os cineastas deviam associar seus longas aos curtas-metragens que lhes interessam, acho que deveria haver uma generosidade "Belair" entre os cineastas. Acho que deveria haver um movimento nacional de soma das artes pra transformação da Cultura, estamos muito isolados, cada um tentando garantir sua feira... 

Ao mesmo tempo, está aí o festival de curtas, as mostras nas cidades... mas se pensarmos no poder coletivo disso... estamos marcando toca...

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Acho que a arte precisa, cada vez mais se libertar dos parâmetros comerciais... e não quero dizer com isso, não ganhar dinheiro, muito pelo contrário, quero dizer:

-Criar espaço pra valorização do que não está catalogado, rotulado, aceito. 

A cada vez que alguém, diretor, ator, escritor, fotógrafo, tem a coragem de mergulhar no seu espaço interno, na sua necessidade vital, que pra mim se traduz em espaço pra experimentação, liberdade de criação, e traz isso pro mundo, ele desamarra  a máquina.

Não é uma exclusividade do curta, do longa,  isso são catálogos. É o papel do artista, é a coragem do produtor. Senão parece isso: - coisa de moleque, coisa de adulto.  No pior sentido, anarquia X caretice?!

Não!

O artista adulto tem que ser o anarquista coroado, livre, pra fazer o que quiser.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Nada é trampolim pra nada. Só mesmo na piscina. E o mais interessante, se pensarmos na metáfora da piscina, é lembrar que é um impulso que nos alavanca pro alto  pra voltarmos pra baixo, pro  profundo...  Acho esse termo aliás - ridículo.  Acho que se alguém está fazendo algo apenas como escada pra chegar em algum lugar, cumprindo metas, está perdendo tempo precioso. Eu não faço uma coisa pra chegar na outra, a não ser quando pego metrô, isso se chama transporte, locomoção. Se você não fizer intensamente algo, não se transformará, não vai sair do lugar. Se colocarmos a questão no campo da experiência, talvez começar por uma estrutura menor, conduza com mais propriedade pra uma escala maior...mas isso é muito pessoal.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não tenho a menor ideia. Não acho que exista receita, inclusive esse termo 

A-u-d-i-o- v-i-s-u-a-l-b-r-a-s-i-l-e-i-r-o, já é pra mim uma abstração, o que é o "audiovisualbrasileiro", se pensarmos Euclidianamente? Digo, se voltarmos para as páginas de Os Sertões, de Euclides da Cunha? Se pensarmos na impossibilidade de catalogar , de resumir "o brasileiro", pela infinidade de equações que geram essa nacionalidade.

O que é?  Impossível...

Vou dizer mais... nem mesmo recita de bolo, é  garantia de resultado. Deixemos de lado essas abstrações...

Eu deixo .

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Talvez...

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